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Augusto Ambrosio Fidelis

Miss Forquilha

Por Portal Agora

Augusto Fidelis

 

Em 1972, meu irmão mais velho chegou em casa com algumas revistas O Cruzeiro. Numa delas havia uma grande reportagem sobre o concurso de Miss Brasil. Depois de examinar bem todos os detalhes, conclui que a Forquilha (município de Carmo da Mata) precisava ter a sua Miss. Peguei um caderno e saí de casa em casa indagando dos moradores: na sua opinião, qual é a moça mais bonita do povoado? De repente, o bicho pegou para o meu lado, tentei desistir, mas já era tarde.

No final, a disputa polarizou-se entre Célia do Chandico e Maria do Tãozico, dois fazendeiros. A Célia foi à comunidade do Batatal e colheu a assinatura de todos os seus parentes e me entregou. Os familiares da Maria não concordaram e me colocaram no paredão. Passei dois dias matutando: voltar no tempo não era possível; seguir adiante, muito difícil. Minha mãe era a única que me apoiava. Nesse meio tempo recebi a visita de um tio da Célia, que me garantiu: fosse a Célia a eleita, a família daria todo apoio para a festa de coroação.

Então dei o veredicto: Célia Silveira é a Miss Forquilha de 1972. O baile foi realizado no salão da escola, com enorme participação da comunidade. Dona Belmira Mattos, convidada de honra, passou a faixa, o manto e a coroa à rainha da beleza forquilhense. A Maria, cuja família ameaçou boicotar o evento, compareceu com dignidade. O ato de coroação foi um momento cívico, com o Hino Nacional executado numa radiola de cor laranja da família da segunda colocada. Tudo foi feito à luz do lampião de gás, emprestado pela dona Nina do Sobém. 

Em 1973 montei uma comissão julgadora sob presidência do então prefeito Lineu de Carvalho, sendo eleita Mônica, filha da Cinica, que recebeu de presente da dona Edite do Dr. Nelson um lindo conjunto composto de colar, brinco e anel.

Em 1974, os jurados ficaram numa saia justa. Uma das candidatas era minha irmã; outra, irmã da Mônica; e duas não moravam no povoado; a única opção era a Minervina. Realizado o desfile, o prefeito Lineu de Carvalho, novamente presidente do júri, anunciou: “Minervina é a Miss Forquilha de 1974”. O público respondeu com ruidosa vaia: “Marmelada! Marmelada!” 

Em 1975, não houve o certame. Em julho daquele ano peguei a minha sacola de roupas e parti em busca de dias melhores. Ontem recebi a notícia da morte da Miss Forquilha de 1973, a Mônica. Foi aí que me dei conta que esses eventos se deram há 50 anos, e a efeméride transcorreu sem nenhuma celebração. Realmente, nada é perfeito. Somente Deus é perfeito: faz chover sobre os bons e os maus, não porque merecem, mas porque necessitam. Mas o tempo é cruel!

 

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