Nos tornamos maus sonhadores

Você já parou para pensar no quanto dormimos mal? Vivemos em uma sociedade que se acostumou a normalizar a insônia, como se fosse apenas efeito de dias corridos, do café da tarde, do celular antes de dormir. Mas, no fundo, talvez ela esteja dizendo muito mais sobre nós. Quando foi a última vez que você dormiu uma noite inteira e acordou verdadeiramente descansado?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 40% da população adulta sofra com algum grau de insônia. Um número que, por si só, já deveria nos chamar a atenção. Afinal, dormir mal não é apenas uma casualidade: é um sinal de que algo em nós pede cuidado, nos pede atenção. Será que a forma como temos vivido (hiperconectada, acelerada, ansiosa) está nos roubando de quê?
O psicanalista Christian Dunker nos lembra que o sono não é um detalhe fisiológico, mas uma experiência vital. É no sono que sonhamos, e é nos sonhos que elaboramos dores, reorganizamos emoções e abrimos espaço para o novo. Quando o sono falha, não apenas o corpo adoece: também se empobrece nossa vida simbólica. Tornamo-nos, como ele diz, maus sonhadores. O que será que os seus sonhos (ou a ausência deles) estão tentando lhe contar?
E quando não conseguimos sonhar bem, ficamos mais rígidos, menos criativos, menos flexíveis. A insônia pode ser, então, um sintoma de fundo: ansiedade, depressão, estresse crônico, síndrome do pânico. Ela denuncia, em silêncio, aquilo que não damos conta de dizer em palavras. O que dentro de você tem pedido pausa, mas ainda não encontrou espaço para ser ouvido?
O curioso é que seguimos funcionando. Produzimos, entregamos, damos conta das demandas. Mas a que custo? Cada noite em claro fragiliza nossa memória, nossa imunidade, nossa capacidade de criar. Pior: nos rouba o direito de sonhar, e sonhar é tão vital, tão necessário!
Talvez seja hora de parar de normalizar o pouco sono e escutar o que ele tem a dizer. Mais do que remédios ou dicas de rotina, a insônia pede um mergulho no cuidado: abrir espaço para falar, buscar ajuda, reorganizar a vida em torno do que dá sentido. O que você tem deixado de olhar?
Porque dormir não é só descansar. É permitir-se elaborar, curar e seguir. É sonhar com olhos fechados para que, ao acordar, possamos também sonhar de olhos abertos.
Quero te propor uma coisinha super legal: que tal olhar mais para você essa semana? Queria te propor um pequeno ritual noturno. Escolha um horário fixo para se recolher. Desligue o celular trinta minutos antes, diminua as luzes e escreva, em um caderno, três coisas pelas quais você é grato naquele dia. Em seguida, respire fundo e diga a si mesmo: “Eu me permito descansar.”
Pode parecer simples, mas é assim que começamos a reconstruir a ponte entre o corpo e o sonho e a recuperar a coragem de ser bons sonhadores outra vez.
Afinal, coragem é permitir-se pausar, sem culpa, para sonhar o que a pressa não deixa nascer.
Respira, é humano!
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