Pertencer é cuidado que se toma em doses de afeto

Deixa eu te contar uma história que talvez você também reconheça.
Em 2025, a palavra saúde social ganhou força e mudou a forma como falamos sobre saúde. Parece novidade, mas não é. Já nos anos 1970, o pesquisador Robert Russell lembrava: se a Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde como bem-estar físico, mental e social, por que ninguém havia desenvolvido esse último pilar? Durante décadas, o social ficou esquecido. Até a pandemia nos obrigar a olhar para ele.
O isolamento prolongado nos mostrou, de forma crua, que a solidão adoece. Descobrimos que as telas não substituem abraços, mensagens não substituem encontros e que nossa saúde depende da qualidade dos vínculos que cultivamos. Foi como se tivéssemos esquecido o óbvio: somos seres sociais por natureza, e quando isso nos é negado, adoecemos o corpo, a mente e a comunidade.
O que mudou nos últimos anos?
A ciência começou a acumular provas de que conexões impactam a saúde tanto quanto alimentação e exercício físico. Estudos longitudinais mostraram que pessoas com redes de apoio robustas vivem mais e com melhor qualidade de vida. Na década de 2020, a pandemia escancarou a solidão, o isolamento e a fragilidade de nossos vínculos. Paralelamente, tecnologias que deveriam nos aproximar, redes sociais, aplicativos, inteligência artificial, muitas vezes nos afastam, atrofiando nossos “músculos sociais”.
Hoje sabemos: cuidar da saúde social deixou de ser luxo. É urgência.
Você já ouviu falar em prescrição social? No Reino Unido, pesquisas de 2023 mostraram que uma em cada cinco consultas médicas de atenção primária tinha como queixa principal a solidão. Médicos começaram a prescrever não só medicamentos, mas atividades comunitárias: oficinas de jardinagem, grupos de caminhada, aulas de culinária, atividades culturais, viagens coletivas.
O efeito é comprovado: pacientes que recebem prescrições sociais relatam sentir-se mais conectados, usam menos serviços de saúde e experienciam um efeito positivo em cascata em sua comunidade. Hoje, 24 países já implementam a prática, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde.
Como cuidar da sua saúde social no dia a dia?
Se cuidamos do corpo com exercícios e da mente com equilíbrio emocional, a saúde social pede rituais de conexão. Pequenos gestos, que parecem simples, mas têm efeito profundo:
Tomar um café sem pressa com alguém querido.
Entrar em um grupo comunitário: caminhada, leitura ou voluntariado.
Visitar familiares ou vizinhos que você não vê há tempos.
Resgatar atividades coletivas que te dão prazer: dançar, cantar, cozinhar, jogar.
Estar presente nas conversas, de corpo inteiro, sem distrações.
Pequenos passos se transformam em grande cuidado quando assumidos com intenção.
Um convite à prática:
Nesta semana, escolha um desses rituais de saúde social e experimente-o como quem cuida da própria saúde. Observe como a presença, o vínculo e o pertencimento afetam seu corpo, sua mente e sua vida. Saúde não é só ausência de doença; saúde é também afeto, comunidade, pertencimento e conexão.
Porque, no fundo, pertencer, cura.
Respira, é humano
Marina Diva de Oliveira
Mestre em Ciências da Saúde; especialista em Saúde Mental; enfermeira; fundadora da Amar Health Hub; mentora em Saúde Mental Corporativa; criadora da Mentoria D.I.V.A. e do projeto “Olhares Femininos”; diretora de Eventos Acid Jovem
marinadivaahh@gmail.com
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