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Marina Diva de Oliveira

Quando foi que você respirou fundo e sentiu que estava exatamente onde deveria estar?

Por Portal Agora
Quando foi que você respirou fundo e sentiu que estava exatamente onde deveria estar?

Talvez você precise pensar um pouco antes de responder. Não estou falando de um dia perfeito, com tudo dando certo, mas daquele instante em que o corpo relaxa, o pensamento desacelera e uma voz silenciosa dentro de você diz: “é aqui”. 

O curioso é que, muitas vezes, quando esse tipo de calmaria chega, a gente estranha. Esperamos os grandes gestos, as conquistas espetaculares, os encontros de tirar o fôlego e quando a vida nos entrega algo silencioso, ficamos inquietos, como se estivéssemos perdendo alguma coisa ou se não merecêssemos. 

Foi assim que percebi: muitas vezes a gente mira na felicidade e acerta no vazio. E não porque não há felicidade, mas porque confundimos intensidade com profundidade.

A ciência confirma essa sensação curiosa. Pesquisas da Universidade de Harvard, que acompanham pessoas há mais de 80 anos, mostram que o que realmente sustenta nossa saúde mental e física ao longo da vida não são momentos de euforia, mas a qualidade das conexões consistentes. Não é o pico, é a constância. Ainda assim, nossa mente, treinada pela cultura do espetáculo, sente falta dos “fogos de artifício” diário.

E há um detalhe: nosso cérebro é programado para se adaptar às emoções intensas, um fenômeno chamado adaptação hedônica. Isso significa que, mesmo diante de conquistas ou experiências extraordinárias, a tendência é que, com o tempo, voltemos ao nosso “ponto de equilíbrio” emocional. Essa oscilação é natural e até saudável. Sem ela, viveríamos exaustos. Mas, como não fomos ensinados a reconhecer esse processo, interpretamos o retorno à calmaria como perda, quando na verdade é um mecanismo de proteção e equilíbrio mental.

Essa saudade do extraordinário pode nos fazer pensar que algo está errado. A viagem não foi mágica o suficiente. A data especial com a família não teve a emoção que esperávamos. O romance parece menos vibrante do que na fase inicial. As borboletas no estômago, antes incansáveis, parecem cansadas. E, muitas vezes, isso não tem a ver só com o sentimento, mas com química cerebral mesmo.

No livro "Nação Dopamina", a dra. Anna Lembke, psiquiatra de Stanford, explica que vivemos numa era de hiperestimulação dopaminérgica, onde notificações, redes sociais, comida ultraprocessada e entretenimento instantâneo bombardeiam nosso cérebro com doses frequentes de dopamina, o neurotransmissor do prazer imediato. Esse excesso reage no nosso sistema de recompensa: a tolerância aumenta com a repetição e, daí, o extraordinário perde força, sendo necessário sempre mais intensidade. Lembke também destaca que esse ciclo pode gerar ansiedade, insatisfação constante e até dependências comportamentais sutis: não é que a calmaria seja vazia, mas que, de tanto buscarmos o pico, acabamos anestesiando tudo o que não grita.

Mas relações verdadeiras se constroem também nos intervalos, no acaso: no café silencioso, na mensagem rápida, no “bom dia” distraído. É nesse território aparentemente banal que a saúde mental encontra solo fértil.

Vivemos numa cultura que nos treina a esperar picos de excitação, mas não a sustentar o prazer do cotidiano. O problema é que não fomos ensinados a valorizar esses intervalos. Crescemos acreditando que felicidade é sinônimo de excitação constante. E quando a calmaria chega, estranhamos. Às vezes, até nos revoltamos.

O perigo disso é que começamos a interpretar momentos neutros como sinais de vazios. Essa distorção emocional pode alimentar frustração, ansiedade e até quadros depressivos. Não é à toa que, segundo a Organização Mundial da Saúde, a depressão já é uma das principais causas de incapacidade no mundo, muitas vezes alimentada por expectativas irreais de felicidade contínua.

Cuidar da saúde mental é, então, um exercício de ressignificar o “normal”. É entender que a ausência de picos não é ausência de sentido. Se, no próximo capítulo da sua vida, você esperar o deslumbramento e encontrar apenas silêncio, não fuja. Respire. Olhe ao redor. Talvez seja nesse momento discreto que a felicidade esteja florescendo.

E se a calmaria parecer incômoda, experimente fazer dela uma aliada. Você pode começar assim:

1. Respire com presença: reserve, todos os dias, três minutos para sentir o ar entrar e sair dos pulmões, sem pressa. Essa pausa simples ajuda a reduzir a ansiedade e aumentar a clareza mental.

2. Pratique o olhar atento: escolha um momento do dia para observar, com mais cuidado, algo que sempre passa despercebido: a cor do céu, o cheiro do café, o som da rua. Pequenas percepções fortalecem o senso de presença e gratidão. Experimente trocar o caminho que sempre percorreu. Vai descobrir novidades simples.

3. Converse sobre o que sente: procure alguém de confiança, ou um profissional, para compartilhar suas inquietações. Falar sobre emoções não é sinal de fraqueza, mas de maturidade e cuidado consigo mesmo.

Pequenos gestos, quando repetidos, criam raízes profundas. Porque a saúde mental não se constrói apenas nos momentos de pico, mas também nos intervalos em que aprendemos a cuidar, com afeto, do que sustenta a vida.

E, se a vida não estiver menos vibrante, mas apenas pedindo que você aprenda a senti-la sem barulho?

Respira, é humano.

Marina Diva de Oliveira – Mestre em Ciências da Saúde;  especialista em Saúde Mental; enfermeira; fundadora da Amar Health Hub;  mentora em Saúde Mental Corporativa; criadora da Mentoria D.I.V.A. e do projeto “Olhares Femininos”; diretora de Eventos Acid JovemCompre vitaminas e suplementos

marinadivaahh@gmail.com 

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