Há ausências que reforçam em nós a urgência de viver com intenção

Nesta semana, fomos surpreendidos com a notícia do falecimento de uma pessoa pública, jovem, talentosa, que lutou pela vida com coragem. Quando alguém assim parte, algo em nós também se abala. Não importa se a conhecíamos de perto ou de longe — a morte de alguém que parecia ter tanto ainda por viver nos convoca a refletir sobre o que estamos fazendo com o tempo que nos resta.
Falar sobre a morte nunca é fácil. Mas silenciar sobre ela também não nos protege. A morte escancara a vulnerabilidade da existência e nos convida a olhar, com mais responsabilidade, para a forma como temos vivido. Para a forma como temos sentido. Para a forma como temos cuidado de nós e dos outros.
O luto, esse processo tão profundamente humano, não é uma doença. É uma resposta natural a uma perda significativa. Como descreveu a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, o luto pode atravessar fases como a negação, a raiva, a barganha, a tristeza e a aceitação — embora não de forma linear. Cada pessoa vive o luto à sua maneira, no seu tempo, no seu corpo. E tudo bem. O importante é saber que sentir é parte da cura.
Mas o luto não é feito só de ausência. Ele também revela presença: da memória, do afeto, do que ficou em nós a partir do que vivemos com quem partiu. Lidar com a perda pode ser devastador — e também transformador. É quando, muitas vezes, tomamos consciência da preciosidade dos dias. Do tempo que passa. Dos afetos que negligenciamos. Das pausas que adiamos. Do autocuidado que deixamos para depois.
Os estudos de Viktor Frankl lembram que o sofrimento só encontra sentido quando é acolhido e atravessado com propósito. Ele nos convida a olhar para a dor como uma chance de reconstrução do sentido da vida — e isso também é saúde mental.
Outro olhar importante vem da psiquiatra brasileira Maria Helena Franco, que estuda o luto há décadas e nos lembra que a dor da perda precisa ser legitimada e acolhida — e não apressada. Segundo ela, “o luto não é algo a ser superado, mas algo a ser integrado”, e essa integração acontece quando temos espaço para expressar, escutar, nomear e sustentar o que sentimos.
A morte nos interrompe, mas também nos orienta. Ela escancara que saúde mental não é só ausência de sofrimento psíquico — é presença de sentido. E sentido a gente constrói nas relações, no propósito, na escuta do que pulsa. Saúde mental também é poder viver o luto com apoio; é ter espaços que acolham nossas lágrimas sem acelerar a volta ao “normal”; é permitir-se desacelerar, reaprender e reconstruir.
O luto coletivo — como o que vivemos diante da partida de figuras públicas — é ainda mais desafiador. Ele toca questões sociais, culturais e simbólicas. Mas também pode ser espaço de empatia, de cuidado ampliado, de conversas que não temos no dia a dia. Pode nos levar a cuidar mais de nós mesmos e dos nossos, a procurar ajuda, a legitimar o sofrimento psíquico que tantas vezes é invisibilizado.
E é importante lembrar que o luto não acontece só quando alguém morre. Vivemos também os lutos do cotidiano: o fim de um relacionamento, a perda de um emprego, o resultado de um processo seletivo que não deu certo, o sonho que precisou ser adiado. São despedidas silenciosas que, muitas vezes, não recebem a legitimidade da dor que causam. Esses lutos simbólicos são reconhecidos como experiências reais de sofrimento psíquico. Não importa o tamanho da perda aos olhos dos outros — se doeu em você, é legítimo. Acolher essas dores é tão necessário quanto acolher as grandes despedidas. Porque é nesse cuidado com o que parece pequeno que a gente aprende a se reconstruir com gentileza.
Por isso, diante da perda, vale lembrar: nem sempre damos conta sozinhos. E não precisamos. Cuidar da saúde mental é também buscar rede de apoio, acolher nossos limites, abrir espaço para falar. E, quando for necessário, procurar ajuda profissional — de psicólogos, terapeutas, psiquiatras. Isso não é sinal de fraqueza, mas de coragem e maturidade.
Que o luto nos ensine a viver com mais presença. Que a saudade se transforme em gesto. Que a dor abra caminho para novos cuidados. E que, ao nos depararmos com a finitude, a gente escolha viver com mais verdade.
Coragem não é ausência de dor — é presença de sentido, mesmo em meio à perda. Respira, é humano.
Marina Diva de Oliveira - Mestre em Ciências da Saúde; especialista em Saúde Mental; enfermeira; fundadora da Amar Health Hub; mentora em Saúde Mental Corporativa; criadora da Mentoria D.I.V.A. e do projeto “Olhares Femininos”; diretora de Eventos Acid JovemCompre vitaminas e suplementos
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