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Marina Diva de Oliveira

Viver de verdade talvez seja isso: reconhecer que o comum é o que sustenta tudo

Por Bruno
Viver de verdade talvez seja isso: reconhecer que o comum é o que sustenta tudo

Outro dia, no encerramento de um treinamento, naqueles dias em que a vida parece correr mais depressa, terminei uma conversa com uma aluna que me olhou nos olhos e disse: Eu só queria uma vida normal. Não precisa ser extraordinária. Só um pouco mais leve”, falou.Fiquei com essa frase na cabeça como quem guarda uma concha no bolso e escuta o mar de vez em quando.Ela não pediu grandes coisas. Não falou em sucesso, viagens, metas, muito menos em felicidade absoluta. Ela só queria um pouco mais de leveza. E, sinceramente, quem não quer?
Talvez estejamos todos, sem perceber, tentando alcançar uma felicidade que nunca foi prometida. Uma alegria embalada a vácuo, vendida nas vitrines e nos feeds, mas que pouco tem a ver com o que sustenta de verdade a nossa saúde mental.
O livro Felicidade Ordinária, publicado pelo The School of Life, nos lembra de algo essencial: a alegria de viver não está nas grandes conquistas, mas nas pequenas repetições que costuram o cotidiano. Está no café com leite, no banho demorado de domingo, na conversa despreocupada com um amigo, no sono tranquilo, na lista de compras simples que carrega o cuidado com a casa. É ali, no comum, que mora a força.
Alain de Botton, que escreveu o livro, cutuca a gente devagar:
“Talvez não tenhamos aprendido a saborear os dias comuns, porque fomos ensinados a buscar apenas os excepcionais”, frisa.
Vivemos numa cultura que nos faz crer que saúde mental é ausência total de sofrimento. Que felicidade é um estado contínuo de realização. E isso nos adoece.
E o que acontece com quem vive dias comuns, como quase todo mundo?
Se sente falhando.
A consequência disso é uma cobrança constante por um tipo de vida inalcançável: mais produtiva, mais bela, mais alegre, mais inspiradora. E nessa busca, esquecemos de perceber o que já está presente. O cheiro do café. A risada boba. O corpo que funciona. A possibilidade de recomeçar.
Cuidar da saúde mental, nesse sentido, é aprender a honrar a vida possível. É perceber que, entre os extremos do sofrimento e da euforia, existe um espaço de serenidade que sustenta a gente.
É não romantizar o sofrimento, mas também não idolatrar uma felicidade fabricada pelas redes sociais.
A cada dia, podemos construir esse cuidado com pequenos gestos:
• dormir com o celular longe do travesseiro;
• comer com atenção, nem que seja uma refeição ao dia;
• buscar por conversas honestas, ainda que difíceis;
• escolher, vez ou outra, o silêncio ao invés da reatividade;
• rir de si mesmo;
• aceitar que há dias bons e outros nem tanto e que nenhum deles dura para sempre.
Saúde mental não se resume a diagnósticos. É também cotidiano, contexto, cultura, corpo, vínculos. E talvez a gente precise começar a tratar a vida comum com o valor que ela tem.
Afinal, como diz o livro:
“É possível ser feliz mesmo quando nada de extraordinário acontece. Na verdade, talvez seja essa a única felicidade que valha mesmo a pena”.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 1 bilhão de pessoas convivem atualmente com algum transtorno mental. Isso não é falha individual.
É reflexo de um mundo que nos empurra para fora de nós, que ignora o tempo da alma e valoriza apenas o que pode ser postado.
Se cuidar, hoje, é quase um ato de resistência.
Resgatar a pausa, a conversa, o simples.
A felicidade possível talvez não renda curtidas, mas pode render fôlego.
E nos dias de agora, fôlego já é milagre.
Respira. É humano!
Não é pouco.
É tudo.

Marina Diva de Oliveira

Mestre em Ciências da Saúde;  especialista em Saúde Mental; enfermeira; fundadora da Amar Health Hub;  mentora em Saúde Mental Corporativa; criadora da Mentoria D.I.V.A. e do projeto “Olhares Femininos”; diretora de Eventos Acid Jovem

marinadivaahh@gmail.com

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