O desafio sofisticado de ser humano

Ela chegou junto com o momento profissional que estou vivendo: uma transição, uma mudança de trabalho, um recomeço. E sei que muita gente está passando por algo assim também: dúvidas, questões, inseguranças que se instalam no meio do peito. É nesses momentos que as perguntas nos visitam com mais força. Não aquelas que têm resposta fácil, mas as que escavam.
A proposta do dia é essa: o desafio sofisticado de ser humano. E, olha, não venho com resposta pronta. Aliás, desconfio que quando se trata de humanidade, é melhor mesmo chegar com perguntas.
Hoje, a pergunta que me atravessa é sobre esse movimento delicado entre segurança e liberdade. Como a gente dança nisso? Como se sentir seguro dentro de si e, ao mesmo tempo, abrir espaço para o outro ser quem é?
Caramba.
Tenho pensado que segurança verdadeira não vem de fora. Vem de dentro. Do autoconhecimento, da clareza sobre valores, da consciência dos próprios limites. Vem da capacidade de dizer o que se precisa sem exigir que o outro atenda de forma específica. Parece pouco, mas isso muda tudo. Porque quando essa segurança mora em nós, a relação vira escolha, e não dependência.
Tenho pensado muito em uma imagem: a de uma árvore com raízes profundas. Ela permanece firme mesmo quando o vento balança os galhos. Isso me toca. Talvez a gente precise aprender mais com as árvores.
Falar em estabilidade, no entanto, me provoca. Relações são sistemas vivos. E tudo o que está vivo… muda. O que pode haver é um outro tipo de estabilidade, não a que nega o movimento, mas a que se sustenta nele. Uma estabilidade dançante. A imagem que me vem é uma aula de balé. Há estrutura, sim: o ritmo, os passos, a técnica. Mas também há corpo, há adaptação, há improviso. Mesmo com toda a disciplina, nada é exatamente igual ao que foi no dia anterior. E isso não é desordem. É vida.
Confiança, então, talvez seja o processo mais desafiador. Ela exige de nós uma entrega que sempre vem com alguma dose de ansiedade. Porque confiar é dar espaço para o outro existir com suas verdades, mas também com suas incertezas e contradições. Sem moldá-lo. Sem domesticá-lo. Sem colocá-lo num molde ideal que a gente inventou pra nos tranquilizar. E isso, convenhamos, é dificílimo.
Pra mim, esse desafio tem se traduzido em trocar certezas por curiosidade. E exercitar uma tolerância à ambiguidade emocional que é parte da experiência de qualquer relação verdadeira. É como manter uma escuta afinada pra saber onde eu termino e onde o outro começa. Porque confundir isso é o começo de muitos nós.
No fim das contas, falei, falei e talvez não tenha dito nada. Ou tenha dito o que mais importa: que não há resposta certa. Há uma pergunta que vai dormir comigo hoje: como sustentar a própria inteireza e, ainda assim, abrir espaço para o encontro?
Não sei. Mas quero dançar essa pergunta um pouco mais.
E, se talvez você, como eu, também esteja sentindo essa ansiedade que chega sem pedir licença. Esse medo de não dar conta, de não ser boa o suficiente, de estar ocupando um lugar que não te pertence. Isso tem nome: síndrome da impostora.
Mas deixa eu te contar uma coisa com alma: você está aqui porque pode. Porque construiu esse lugar com a sua história. A dúvida não te desqualifica. Ela só mostra que você está viva, presente, comprometida.
E isso é precioso.
Que a gente siga dançando. Quero dançar essa pergunta um pouco mais.
Respira,
É humano!
E vale a pena experenciar!
Marina Diva de Oliveira
Mestre em Ciências da Saúde; especialista em Saúde Mental; enfermeira; fundadora da Amar Health Hub; mentora em Saúde Mental Corporativa; criadora da Mentoria D.I.V.A. e do projeto “Olhares Femininos”; diretora de Eventos Acid Jovem
marinadivaahh@gmail.com
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