Deixar faltar também é forma de amar

Como você cuida do seu coração quando cuida de tantas coisas e dos filhos?
Já sentiu que o amor não diminui, mas que o cansaço grita mais alto que a sua paciência?
Que as férias escolares parecem lindas nos outros, mas em você, parece desafiador?
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que mulheres, especialmente mães, apresentam taxas mais elevadas de transtornos de ansiedade e depressão em comparação com a população geral. O acúmulo de responsabilidades, a sobrecarga emocional e a pressão por ser “supermãe” aumentam o risco de adoecimento mental, tornando o cuidado consigo mesmo um ato urgente e necessário.
Imagino que você já tenha preparado o almoço correndo, com brinquedos espalhados pelo chão, enquanto alguém puxava sua blusa chamando "mãe, mãe, mãe", e tudo o que você queria era um minuto de silêncio e um tempo maior para se organizar e ainda ir para o trabalho. E, quando finalmente conseguiu, se sentiu culpada por desejar estar sozinha.
É aí que mora o conflito: o amor é real, mas o limite também.
E isso não te torna menos mãe, te torna humana.
Donald Winnicott, psicanalista inglês, nos deixou uma expressão libertadora: mãe suficientemente boa.
Não é a mãe perfeita, mas a que erra e repara.
A que não impede a frustração, mas acolhe o que ela gera.
Ela não protege de tudo, porque sabe que um filho precisa aprender, pouco a pouco, que o mundo também falha e que ainda assim, é possível viver.
A mãe suficientemente boa cria espaço psíquico: um lugar interno onde o filho aprende a lidar com o não, com o tédio, com a ausência momentânea.
E, paradoxalmente, é nesse vazio que ele descobre recursos próprios: imaginação, autonomia, empatia.
É aí que ele aprende a esperar, a suportar, a construir sentido mesmo quando algo falta.
Isso não quer dizer negligência, mas limite porque o limite é terapêutico. Um “não” que não exclui, mas ensina a existir com os outros.
E aqui está o ponto: ser tudo para um filho é uma fantasia perigosa.
Não só consome a saúde mental da mãe, como sufoca o desenvolvimento emocional da criança.
O que sustenta a vida psíquica de um filho não é a onipresença da mãe, mas sua capacidade de estar de forma viva e real, com erros e acertos, com amor e humanidade.
Nas férias, o desafio é ainda maior. Mas talvez esse seja o tempo certo para soltar o mito da perfeição e abraçar o bom o bastante.
Deixar faltar não é abandonar. É confiar.
Confiar que um filho também cresce na ausência.
Que tédio também é espaço de criação.
E que cuidar de si (sim, parar, pedir ajuda, descansar) também é um ato profundo de cuidado com eles.
E quando houver presença, que ela seja com intencionalidade.
Não precisa ser mirabolante. Algumas pequenas ações podem gerar conexão real:
- preparar o café da manhã juntos e conversar enquanto arrumam a mesa;
- assistir ao mesmo filme e perguntar: “o que mais te marcou?”;
- andar de mãos dadas pela rua, em silêncio mesmo;
- ir para uma praça e brincar por lá sem tanta preparação, sentindo a presença um do outro;
- perguntar: “como você está se sentindo hoje?” e escutar com o coração.
Não é sobre ter tempo. É sobre fazer valer o tempo que se tem.
Queria te propor um desafio para a semana. O que acha? Então, vamos lá:
Durante esta semana, escolha momentos simples do dia para praticar um “Momento de Gratidão Consciente” com seu filho. Pode ser na hora do café da manhã, enquanto esperam o ônibus, no banho, ou antes de dormir. O importante é reservar 3 minutos para que cada um diga algo pelo qual se sente grato (pode ser o cheiro do pão quentinho, o som dos passarinhos, um abraço apertado, ou até a chance de estar juntos).
Essa pequena pausa ajuda a cultivar a presença e a conexão em meio à rotina corrida, fortalecendo o vínculo e lembrando que, mesmo no caos, há pequenas belezas que sustentam o amor.
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