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Marina Diva de Oliveira

Afastamentos por transtornos mentais: o que os números não contam

Por Portal Agora
Afastamentos por transtornos mentais: o que os números não contam

Os dados são alarmantes: os transtornos mentais estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no Brasil. Ansiedade, depressão e burnout têm tirado milhares de pessoas de suas rotinas produtivas e, mais do que isso, da possibilidade de viver com qualidade. Mas os números não contam tudo. Eles não mostram o sofrimento silencioso por trás de cada estatística, nem a solidão de quem precisa escolher entre resistir no trabalho ou cuidar de si.

Vivemos em um tempo em que nunca se falou tanto sobre saúde mental. As redes sociais transbordam conteúdos, lives e frases sobre autocuidado. E, no entanto, seguimos adoecendo. O acesso à informação não tem se transformado em mudança real de hábitos, nem em ambientes de trabalho mais humanos ou em redes de apoio fortalecidas. O paradoxo é doloroso: sabemos mais, mas cuidamos menos.

Há ainda outro fator que pesa: as relações. Nunca estivemos tão conectados virtualmente e, ao mesmo tempo, tão distantes emocionalmente. Relações cada vez mais rasas e vazias de sentido vêm esvaziando a experiência humana. Estudos mostram que a qualidade das nossas conexões é um dos principais determinantes da saúde mental. Vínculos frágeis aumentam o risco de adoecimento psíquico, enquanto relações de apoio, confiança e afeto funcionam como proteção contra a ansiedade, a depressão e até doenças físicas. Cultivar relações profundas, hoje, é tão necessário quanto se alimentar bem ou praticar atividade física.

Sinais que merecem atenção imediata:

  • Alterações persistentes no sono;
  • Mudança no apetite (para mais ou para menos);
  • Irritabilidade constante e sensação de esgotamento;
  • Dificuldade de concentração e queda no rendimento;
  • Falta de prazer em atividades antes prazerosas;
  • Isolamento social e afastamento das pessoas queridas.

Diante desses sinais, procurar apoio não é fraqueza, é cuidado e responsabilidade. Nesse caminho, é fundamental conhecer a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), criada pelo SUS para oferecer acolhimento e cuidado integral. Essa rede inclui desde as unidades básicas de saúde, que funcionam como porta de entrada, até os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), hospitais gerais, unidades de acolhimento e serviços voltados a populações em situação de vulnerabilidade. Temos, ainda, o Centro de Valorização da Vida (CVV)  que está disponível 24 horas por dia, pelo telefone 188, oferecendo escuta gratuita e sigilosa. Trata-se de uma rede que acolhe, acompanha e apoia.

Saber que essa estrutura existe é essencial. Mas ainda mais importante é dar o primeiro passo: falar, pedir ajuda, abrir espaço para o cuidado. Informação sem ação não protege.

Sabe, quando falamos em procurar ajuda, é claro que a Rede de Atenção Psicossocial é fundamental. Mas, para além da rede, existem alguns pontos de atenção que a gente não pode esquecer.

Um deles é o ambiente de trabalho. Não adianta falar de saúde mental se as pessoas continuam sobrecarregadas, sem clareza do que se espera delas ou vivendo em um clima de medo. O trabalho pode ser fonte de realização, mas também pode ser um dos maiores gatilhos de adoecimento quando falta segurança psicológica.

Outro ponto são as relações de qualidade. Pode reparar: quando estamos bem amparados, com amigos, família e vínculos de confiança, enfrentamos os desafios de um jeito diferente. Relações superficiais não sustentam ninguém no longo prazo.

E não dá para falar de saúde mental sem falar de autocuidado real. Não é aquela performance bonita do Instagram, mas o básico que sustenta: dormir bem, se alimentar de forma equilibrada, mexer o corpo, encontrar momentos de descanso e prazer.

Também precisamos de educação em saúde mental. Ainda existe muito preconceito. Quanto mais falarmos de forma clara, simples e verdadeira, mais cedo as pessoas vão buscar ajuda sem esperar chegar ao limite.

Outro ponto importante é a atenção precoce. Muitas vezes, a gente percebe sinais em nós mesmos ou em alguém próximo — irritabilidade, isolamento, queda de rendimento — mas deixa passar. Quanto antes se procura apoio, menores são os riscos de agravamento.

E, por fim, tem algo que vai além de cada um de nós: as políticas públicas e o suporte social. Saúde mental também depende de condições de vida dignas: renda, moradia, segurança alimentar. Sem isso, o sofrimento tende a se intensificar.

No fundo, o cuidado não está só nos serviços de saúde, mas em como a gente trabalha, se relaciona, organiza a vida em sociedade e olha para si mesmo. É um conjunto de escolhas e de apoios que, somados, fazem diferença.

Cuidar da saúde mental não é luxo, é necessidade. Não é fraqueza, é coragem. E, acima de tudo, não é um caminho solitário: envolve redes, relações e escolhas diárias. Os números podem mostrar a dimensão do adoecimento, mas não contam a história de cada pessoa que luta em silêncio. Essa história só muda quando transformamos informação em ação, vínculos em cuidado e trabalho em espaço de vida.

No fim, a mensagem é simples, mas poderosa: diante da pressão, da correria e dos desafios, respira fundo, acolhe-se… você é humano, e está tudo bem pedir ajuda.

Marina Diva de Oliveira – Mestre em Ciências da Saúde;  especialista em Saúde Mental; enfermeira; fundadora da Amar Health Hub;  mentora em Saúde Mental Corporativa; criadora da Mentoria D.I.V.A. e do projeto “Olhares Femininos”; diretora de Eventos Acid JovemCompre vitaminas e suplementos

marinadivaahh@gmail.com 

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