Qual sua mochila?

Você já parou para pensar na mochila que carrega todos os dias e no peso invisível que ela exerce sobre você?
A ansiedade, nas palavras do psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, em *“Toda ansiedade merece um abraço”*, deixou de ser uma emoção eventual e se tornou um modus operandi da vida contemporânea. Ela nos arranca do presente, projetando-nos para futuros imaginários, muitas vezes catastróficos, enquanto deixamos de viver o agora. E, como disse o mestre José Márcio Zanardi: “nossa eternidade é o tempo do agora”.
Carregamos sonhos, expectativas, demandas externas e internas, cobranças multiplicadas. Nossa mochila psicológica, que deveria nos sustentar, torna-se peso. Esse peso nos afasta da realidade que pulsa sob nossos pés.
Não é à toa que a ansiedade ganhou destaque no filme *Divertidamente*. A animação mostra Riley e suas emoções internas: Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Ansiedade. Cada emoção tem seu papel. A ansiedade surge como Alegria exageradamente preocupada, antecipando problemas e tentando impedir que algo dê errado. O filme nos lembra: ignorar ou sufocar emoções não funciona. É preciso acolher cada uma, aprender a gerenciá-las e não permitir que dominem o presente. Assim, podemos observar a ansiedade como um alerta útil, sem deixar que ela carregue toda a mochila sozinha.
Como a ansiedade rouba o presente?
Você já percebeu como a ansiedade nos distancia do agora? Coimbra afirma: ela “age ao nos retirar do presente e nos lançar em cenários futuros próximos à catástrofe”.
Estamos jantando com quem amamos, mas a mente viaja para cobranças no trabalho, boletos ou crises que ainda não existem. Quando a ansiedade se torna rotina, a experiência do tempo se fragmenta. Vivemos como espectadores de nós mesmos.
Essa tensão também vem da aceleração da vida: mais tarefas, mais telas, mais simultaneidade. O verbo “otimizar” tempo, tão cultuado, se transforma em tragédia. Acumulamos tarefas como se fôssemos devedores da própria existência. Cada notificação do celular lembra algo que precisamos responder, aumentando o peso.
Que tipo de mochila você carrega?
Podemos imaginar diferentes estilos:
• Mochila de expectativas extremas: exige desempenho, perfeição e aceleração. Cada deslize é interpretado como catástrofe iminente. O perfeccionismo transforma qualquer tarefa em prova de sobrevivência.
• Mochila do “dever” permanente: tarefas nunca terminam. O “saldo devedor” mental é constante. Descansar é sinônimo de culpa; sempre há algo por fazer.
•Mochila da antecipação negativa: projetamos riscos e problemas futuros que ainda não existem, carregando tragédias imaginárias. Nada aconteceu, mas a mente já sofre com elas.
• Mochila adaptada (possível, mas rara): carrega planos, sonhos e responsabilidades com flexibilidade, permitindo pausas e retorno ao presente. Respira quando necessário, reorganiza cronogramas, pede ajuda, cuida de si e dos outros.
Muitas vezes, trocamos a mochila adaptada por uma pesada, invisível, costurada por discursos sociais de produtividade e por uma cultura performática que banaliza a ansiedade.
Quando a mochila vira sobrecarga
Nem toda ansiedade é doença. Ela é sinal de que algo importa. Mas quando a mochila pesa a ponto de afetar sono, relações, trabalho e saúde física, é hora de atenção. Coimbra lembra que não há causa única: genética, história de vida, ambiente, perdas, pressões, tudo converge.
A linha entre “funcionar com ansiedade” e “adoecer por ansiedade” é tênue, mas visível: quando a mochila paralisa, aprisiona e rouba o direito de existir no presente.
Como aliviar o peso?
Para não sermos reféns da sobrecarga, precisamos de estratégias que nos permitam retornar ao presente ou, ao menos, pousar nele com frequência:
1. Pausas intencionais
Crie “botões de reinício” no dia: caminhada, café sem celular, cinco minutos respirando. Uma técnica útil é o Pomodoro: 25 minutos de foco e 5 minutos de pausa. O cérebro descansa, a sobrecarga diminui e devolvemos a presença ao que fazemos.
2. Negociação de urgência
A ansiedade infla tarefas, tornando tudo urgente. Pergunte: “O que realmente precisa ser entregue agora?” ou “Qual prazo é inegociável e qual podemos ajustar?”. Isso ajuda a distinguir pressão interna de necessidade real, aliviando a mochila.
3. Limite digital e ritual de desligar
Notificações constantes são alarmes de dívida. O excesso de telas mantém o corpo e a mente em prontidão. Desativar notificações, estabelecer horários e criar um ritual de desligar antes de dormir devolve a presença e silêncio.
4. Experiências pequenas de prazer
Não se trata de “eventos de autocuidado” engessados, mas de pequenas pausas: observar o céu, conversar olhando nos olhos, cuidar de algo que cresce em suas mãos. Esses gestos devolvem textura ao presente.
5. Flexibilidade como músculo existencial
Flexibilidade não é só adaptação, mas elasticidade interna: errar não é ruína, recomeçar é humano. Esse músculo nos permite respirar dentro das incertezas.
6. Cuidar coletivamente
A vida é comunitária. Criar rituais de vínculos e apoio nas relações alivia a mochila e desmonta o mito da autossuficiência. Saúde mental é um ato coletivo.
7. Buscar ajuda profissional
Nem toda ansiedade pode ser gerida sozinha. Psicólogos, psiquiatras, psicanalistas e outros profissionais oferecem ferramentas para reorganizar a mochila sem sobrecarga. Pedir ajuda é coragem e cuidado consigo mesmo.
Convite final
Qual mochila você quer carregar?
Olhar para nossa mochila interna nos aproxima da condição humana. É um convite para clarear o peso, organizar o que é essencial, nomear emoções e escolher o que nos dá vitalidade. Assim, podemos nos plantar no presente, onde há vida, movimento e possibilidade.
Quando a ansiedade chegar, faça o exercício 5-4-3-2-1:
• Observe 5 coisas que vê
• 4 coisas que pode tocar
• 3 sons que ouve
• 2 cheiros que percebe
• 1 gosto presente na boca
Este ato simples cria um ponto de ancoragem no presente. Por mais intensa que seja a ansiedade, você escolhe onde colocar o foco e qual mochila continuar carregando.
Respira, é humano.
Marina Diva de Oliveira
Mestre em Ciências da Saúde; especialista em Saúde Mental; enfermeira; fundadora da Amar Health Hub; mentora em Saúde Mental Corporativa; criadora da Mentoria D.I.V.A. e do projeto “Olhares Femininos”; diretora de Eventos Acid Jovem
marinadivaahh@gmail.com
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