Nova safra pode frear alta do feijão nos supermercados
Enquanto os preços seguem elevados, varejo e consumidores aguardam aumento da oferta para aliviar o custo

Jorge Guimarães
Parece que o tradicional arroz com feijão está ficando mais caro para o consumidor. Quem passou pelos supermercados nas últimas semanas já percebeu o aumento gradual no preço do quilo do produto dcarioquinha, um dos alimentos mais presentes na mesa dos brasileiros. O reajuste tem chamado a atenção das famílias, já que o produto faz parte da alimentação diária e seu encarecimento impacta diretamente o orçamento doméstico.
Alta
Nos cinco primeiros meses de 2026, o feijão registrou uma forte valorização no campo, movimento que passou a ser sentido pelos consumidores nas prateleiras dos supermercados. Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostra que os preços pagos ao produtor do feijão-carioca aumentaram entre 85% e 90% nos principais polos produtores do país. Já o feijão-preto acumulou alta média de 51,7% no mesmo período.
A elevação dos preços na origem tem impacto direto sobre o varejo. Dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que, somente em maio, o feijão-carioca ficou 6,44% mais caro para o consumidor, enquanto o feijão-preto registrou aumento de 2,07%.
No acumulado de 2026, a diferença é ainda mais expressiva. O preço do feijão-carioca já subiu 41,09%, enquanto o feijão-preto acumula alta de 13,69%.
— Os números refletem a valorização do produto no campo e confirmam a pressão exercida sobre o orçamento das famílias brasileiras, especialmente por se tratar de um dos principais itens da cesta básica e presença constante nas refeições do dia a dia — avalia o economista Leandro Maia.
Fatores
O aumento do preço reflete uma combinação de fatores, entre eles a redução da oferta em algumas regiões produtoras, as condições climáticas que afetaram a produtividade das lavouras e o aumento dos custos de produção e logística. Como consequência, o consumidor tem encontrado o produto com valores superiores nos pontos de vendas.
— Para as famílias, o cenário exige ainda mais planejamento nas compras e pesquisa de preços entre os estabelecimentos, já que a diferença de valores pode variar de um supermercado para outro — alerta Maia.
Nova safra
Antes de aliviar o bolso do consumidor, o mercado ainda acompanha com cautela o desenvolvimento da nova safra de feijão, prevista para ocorrer entre os meses de julho e setembro. A expectativa do setor é que o aumento da oferta nos próximos meses contribua para equilibrar a relação entre oferta e demanda, reduzindo a pressão sobre os preços. Caso as condições climáticas permaneçam favoráveis e a produtividade atinja os níveis esperados, a tendência é de estabilização das cotações e até mesmo de recuo gradual no valor do produto nas gôndolas dos supermercados.
— Até lá, porém, o feijão deve continuar figurando entre os itens que mais pesam no orçamento das famílias brasileiras — pontua o economista.
Para quem sente no dia a dia o impacto da alta, a expectativa é positiva, mas ainda cercada de cautela.
— A gente tem percebido o feijão cada vez mais caro. Está difícil manter a compra como antes, então qualquer queda no preço já ajuda muito — comentou a aposentada Neuza Oliveira Ferreira, enquanto fazia compras em um supermercado da cidade.
Outro cliente, José Batista Alves, também demonstrou esperança.
— Se a nova safra vier boa, tomara que o preço abaixe mesmo. O feijão não pode faltar na mesa da gente — disse.
Varejo
Do lado dos supermercados, a percepção é semelhante. O setor acompanha diariamente a movimentação do mercado e já observa com atenção o comportamento da nova safra, na expectativa de que o aumento da oferta ajude a conter a escalada dos preços nos próximos meses.
O gerente de operações de uma rede de supermercados, Sérgio Antônio de Oliveira, afirma que o varejo acompanha de perto a evolução da nova safra e torce por uma recuperação da oferta.
— O feijão é um produto essencial na alimentação dos brasileiros e qualquer variação no preço é rapidamente percebida pelos consumidores. Nós também estamos acompanhando a expectativa em relação à nova safra, porque um aumento da produção pode trazer mais equilíbrio ao mercado e ajudar na redução dos preços — diz.
Segundo ele, enquanto esse cenário não se concretiza, os supermercados buscam alternativas para minimizar os impactos ao consumidor.
— Temos trabalhado junto aos fornecedores para buscar as melhores condições de compra e manter preços competitivos, mas o varejo também sofre os reflexos da valorização do produto na origem. Nossa expectativa é que, com uma safra maior e de boa qualidade, haja uma recomposição da oferta e os preços possam voltar a um patamar mais acessível — destaca.
Estratégias
Diante da alta no preço do feijão, muitos restaurantes têm precisado adotar estratégias para manter o equilíbrio financeiro sem repassar totalmente os custos ao consumidor. Em meio a esse cenário, a criatividade e a gestão cuidadosa do cardápio têm sido fundamentais.
O empresário e sócio-proprietário de restaurante, Rolando Meneses, explicou que a alternativa encontrada foi fazer ajustes internos para preservar o cliente de aumentos mais pesados.
— A gente sabe que o feijão é um item essencial no prato do brasileiro, então evitamos ao máximo repassar esse aumento diretamente. O que fizemos foi reorganizar o cardápio, equilibrando os custos com outros ingredientes e reduzindo desperdícios — afirmou.
Mesmo com os desafios, o empresário destaca que o objetivo principal é manter a fidelidade dos clientes.
— Se a gente aumenta muito o preço, acaba afastando o público. Então, preferimos absorver parte desse impacto e nos adaptar. É um esforço grande, mas necessário para continuar competitivo — concluiu.
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