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Editorial

Novela conhecida

Por Bruno
Novela conhecida

Mais uma vez, o mesmo roteiro. Mudam os números, mudam os discursos, mas o enredo é sempre igual: o reajuste dos servidores vira novela em Minas Gerais. E, como toda novela repetida, já se sabe o final: frustração de um lado e justificativas do outro.

O avanço dos 5,4% na Assembleia Legislativa pode até representar um passo formal, mas está longe de ser solução. Na prática, é mais um capítulo de um problema antigo, empurrado ano após ano sem coragem política para ser enfrentado de verdade. O que se discute não é apenas o índice de agora, mas o acúmulo de perdas de ontem — e é exatamente aí que o debate emperra.

O governo se apega ao discurso técnico: o reajuste supera a inflação recente, respeita os limites fiscais e mantém o equilíbrio das contas. Tudo correto no papel. Mas a realidade não se resume a planilhas. Para quem está na ponta, o que pesa não é apenas o último índice inflacionário, mas anos de salários corroídos, carreiras desvalorizadas e promessas nunca cumpridas.

E é nesse ponto que o discurso oficial perde força. Porque não adianta vender “ganho real” quando a sensação concreta é de perda acumulada. Não adianta falar em responsabilidade fiscal ignorando a responsabilidade com quem mantém o serviço público funcionando todos os dias.

Por outro lado, também não se pode ignorar o tamanho da conta. São bilhões em impacto anual, centenas de milhares de servidores atingidos. O Estado não tem margem infinita. Mas é justamente por isso que a discussão não pode ser tratada como um evento isolado, resolvido às pressas todo início de ano, especialmente em período pré-eleitoral.

Aliás, o calendário político escancara ainda mais o problema. A corrida contra o prazo legal para concessão de reajustes revela que, mais do que planejamento, há pressa. E quando há pressa na política, quase sempre falta profundidade. O resultado é esse: medidas paliativas, aprovadas no limite, sem enfrentar a raiz da questão.

Enquanto isso, categorias seguem pressionando, parlamentares fazem ressalvas protocolares e a população assiste a mais um impasse que parece não ter fim. Porque não tem mesmo. Não enquanto o debate continuar sendo tratado como remendo anual, e não como política de Estado.

O mais preocupante é a naturalização desse ciclo. Virou rotina aceitar que todo ano será assim: tensão, desgaste, aprovação apertada e insatisfação generalizada. Como se fosse normal. Não é.

Servidor desvalorizado não é apenas um problema corporativo. É um problema direto na qualidade do serviço prestado à população. Segurança, saúde, educação, tudo passa por essas carreiras. Ignorar isso é, no fundo, empurrar o problema para dentro da vida de quem depende desses serviços.

O reajuste pode até passar em segundo turno. Deve passar. Mas a pergunta que fica é outra: até quando Minas vai tratar um problema estrutural como se fosse um ajuste pontual?

Porque, do jeito que está, não é política pública. É repetição. E das mais desgastantes.

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