Um novo capítulo

Divinópolis entra para a história, e não é força de expressão. Pela primeira vez, a cidade tem uma mulher no comando do Executivo. A posse de Janete Aparecida não é apenas uma mudança administrativa. É um marco. E, ao mesmo tempo, um alerta.
Sim, é motivo de comemoração. Mas, em pleno 2026, ainda precisar dizer “pela primeira vez” já revela muito. Revela o atraso, a desigualdade e o quanto a política ainda é um espaço dominado, majoritariamente, por homens. Não é normal. Nunca foi. Apenas foi naturalizado.
A chegada de uma mulher ao cargo mais alto do município precisa ser celebrada, mas não romantizada. Porque não se trata de concessão. Trata-se de conquista. De trajetória. De resistência.
Janete não surgiu agora. Não é improviso. Não é acaso. Sua história passa por trabalho social, atuação comunitária, vivência política e, principalmente, construção de base. Diferente do que muitos ainda insistem em acreditar, mulher na política não é exceção, é capacidade que sempre esteve presente, mas raramente teve espaço.
E aqui cabe um ponto incômodo, mas necessário: a maior barreira para mulheres na política, muitas vezes, não vem apenas dos homens. Vem da própria sociedade, que ainda insiste em duvidar, comparar, diminuir e, em alguns casos, até rejeitar. Quantas vezes se ouve que “não vota em mulher”? Quantas vezes a cobrança é maior, o julgamento mais duro? Esse comportamento não é só ultrapassado. É prejudicial. Atrasa. Limita. E mantém um ciclo que precisa ser rompido de uma vez por todas.
A posse de Janete acontece em um contexto político claro: a saída de Gleidson Azevedo para disputar novos caminhos eleitorais. E aqui há outro ponto importante. A política está em movimento. É ano eleitoral. Trocas de comando, reposicionamentos e novas lideranças vão surgir. E isso exige atenção redobrada da população.
Porque, no fim das contas, mais importante do que quem assume é como assume. Não basta ocupar o cargo. É preciso liderar, decidir, enfrentar problemas e dar respostas. E isso vale para qualquer gestor, homem ou mulher.
Janete agora deixa de ser vice. Sai da sombra, se é que algum dia esteve nela, e assume o protagonismo. Com isso, vem o peso da caneta, da responsabilidade e da expectativa. E expectativa não falta.
A cidade cobra continuidade do que deu certo, mas também espera avanços. Saúde, infraestrutura, desenvolvimento: os desafios continuam os mesmos. A diferença é que, agora, há a oportunidade de conduzir com identidade própria. Que fique claro: o fato de ser mulher deve ser visto representatividade somada à competência.
Divinópolis vive um momento histórico. Mas momentos históricos não se sustentam apenas no simbolismo. Eles precisam se traduzir em resultados. Que essa posse não seja apenas um registro nos livros. Que seja o início de uma mudança real. Não só na gestão, mas na forma como a política enxerga, e respeita, as mulheres.
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