Um dia não basta

2 de abril chega, mais uma vez, trazendo visibilidade a uma pauta que não deveria depender de datas para existir. O chamado “Abril Azul” cumpre um papel importante ao ampliar o debate sobre o Transtorno do Espectro Autista, mas também escancara uma contradição incômoda: por que ainda precisamos de um mês específico para falar de algo que deveria estar presente na rotina da sociedade o ano inteiro?
A caminhada realizada em Divinópolis, abrindo a programação, mostra que há avanço. Mais pessoas participando, mais vozes sendo ouvidas, mais espaços sendo ocupados. Mas também revela que ainda estamos longe do ideal. A presença cresce, mas a compreensão nem sempre acompanha no mesmo ritmo.
O autismo não é novidade. A informação está disponível, os diagnósticos aumentam, os relatos se multiplicam. Ainda assim, o desconhecimento persiste de forma preocupante. Ele aparece nos julgamentos apressados, na falta de preparo em ambientes públicos, na dificuldade de acesso a serviços básicos e, principalmente, na resistência silenciosa à inclusão real.
É comum ver campanhas bem produzidas, discursos alinhados e manifestações de apoio. Mas a vida fora desses momentos continua desafiadora para quem está no espectro e para suas famílias. Conseguir um acompanhamento adequado, garantir um professor de apoio, acessar terapias ou simplesmente circular sem constrangimento ainda exige esforço além do razoável.
E isso não acontece por falta de lei. O país avançou na construção de um arcabouço legal que reconhece direitos e estabelece garantias. O problema está na prática. O que deveria ser automático vira disputa. O que deveria ser assegurado vira exceção. E o que deveria ser inclusão vira adaptação improvisada.
O 2 de abril, portanto, precisa ser encarado como mais do que um momento de sensibilização. É uma oportunidade de encarar a realidade sem filtros. De entender que inclusão não é favor, não é gesto de boa vontade, não é pauta secundária. É obrigação. É estrutura. É política pública eficiente.
A mobilização vista na cidade mostra que existe disposição para avançar. Famílias seguem se organizando, instituições se fortalecem, o debate ganha espaço. Mas isso precisa encontrar respaldo concreto. Sem planejamento, investimento e continuidade, toda essa energia se perde quando o mês termina.
Há também um desafio coletivo que vai além do poder público. A sociedade ainda precisa aprender a conviver com as diferenças de forma natural, sem estranhamento, sem julgamento, sem exclusão disfarçada. Respeito não pode depender de campanha. Precisa ser comportamento.
Abril começa com cor, movimento e discurso. Mas o que realmente importa é o que acontece depois. Quando o tema sai do foco, é ali que a inclusão é testada de verdade.
E é justamente nesse momento que, quase sempre, ela falha.
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