NOVEMBRO: A POESIA NEGRA BRASILEIRA

Coluna de Claúdio Guadalupe
Novembro é mês da poesia negra. Não só pelo dia 20/11, Dia da Consciência Negra, mas pela presença dos grandes poetas negros: Jorge de Lima (15/11/1953, falecimento) e Cruz e Sousa (22/11/1861, nascimento). Jorge de Lima, já o apresentei na semana passada, e na coluna de hoje, quero destacar, além de Cruz e Sousa, o outro poeta da etnia negra, Solano Trindade.
ESCRAVOCRATAS (Cruz e Sousa)
Oh!. trânsfugas do bem que sob o manto régio
Manhosos, agachados - bem como um crocodilo,
Viveis sensualmente à luz dum privilégio
Na pose bestial dum cágado tranqüilo.
Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
Ardentes do olhar - formando uma vergasta
Dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
E vibro-vos à espinha - enquanto o grande basta
O basta gigantesco, imenso, extraordinário -
Da branca consciência - o rutilo sacrário
No tímpano do ouvido - audaz me não soar.
Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
Vermelho, colossal, d' estrépito, gongórico,
Castrar-vos como um touro - ouvindo-vos urrar!
(O Livro derradeiro. In: Poesia completa, p. 201).
Um grito veemente, um poema-soco nos escravocratas da época, dado por João Cruz e Sousa, que só ultimamente vem sendo valorizado pelas Academias. Foi então, o máximo representante do Simbolismo, do final do século XIX, e com a alcunha Cisne Negro, Cruz e Sousa é considerado pelo site Literafro (portal da literatura afro-brasileira da UFMG), como um dos precursores da literatura afro-brasileira.
Cronista e colaborador em vários jornais e revistas, onde apresentava sempre textos contra a escravidão e pela República, foi filho de escravos (depois alforriados), vivendo na pele, o preconceito racial tão presente em Florianópolis (sendo até preterido do cargo de promotor), que o levaria para Rio de Janeiro, com sua prosa e poesia simbolista. Místico, angustiado, com uma poesia bastante musical, com muitas aliterações, rimas, construções com métricas rigorosas, lançará no ano de 1893, as suas duas obras primas: Missal (Poemas em prosa) e Broquéis (Poemas).
Por outro lado, na década de 1930, Solano Trindade (24/04/1908 - 19/02/1974) foi um agitador cultural, envolvido no Teatro Popular Brasileiro (TPB), e cofundador do movimento da Frente Negra Pernambucana e
do Centro de Cultura Afro-Brasileira (1936). Iniciou sua carreira literária, com o livro POEMAS NEGROS, repleto de poesias de cunho popular, crítica, muito musical, e com os temas negros: candomblé, folias, maracatus, a pobreza na infância e a luta fraterna contra o racismo.
SOU NEGRO (Solano Trindade)
Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gonguês e agogôs
Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.
Depois meu avô brigou
como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso.
Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou.
Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação.
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