Outubro Rosa também é delas: câncer de mama em cadelas e gatas tem prevenção

Outubro chega e, com ele, o laço rosa volta a ocupar vitrines, prédios públicos e conversas. A campanha, criada para conscientizar sobre o câncer de mama nas mulheres, tem um alcance que muitas vezes passa despercebido: ela também pode, e deve, chegar aos nossos lares por meio das cadelas e gatas que dividem a vida conosco. Assim como nas mulheres, o câncer de mama nos animais de companhia é frequente, silencioso no início e, em grande parte dos casos, evitável.
Os tumores de mama são os tumores mais comuns em cadelas não castradas, respondendo por cerca de metade de todas as neoplasias diagnosticadas nessas fêmeas. Aproximadamente metade desses tumores é maligna. Nas gatas, embora a doença seja um pouco menos frequente, o cenário é ainda mais preocupante: entre 80% e 90% dos nódulos mamários felinos são malignos, com comportamento agressivo e alta capacidade de se espalhar para linfonodos e pulmões. Por isso, nenhum caroço na mama de uma gata deve ser considerado inofensivo até que se prove o contrário.
A produção do conhecimento científico só cumpre o seu papel quando chega à casa das pessoas e muda atitudes. E a ciência veterinária já nos deu respostas muito claras sobre o que aumenta e o que reduz o risco dessa doença. O principal fator associado é hormonal: a exposição repetida das glândulas mamárias aos hormônios ovarianos, especialmente estrógeno e progesterona, a cada ciclo de cio. Quanto mais ciclos a fêmea vive, maior a chance de alterações nas células mamárias. Também contribuem a idade (a maioria dos casos ocorre a partir dos seis ou sete anos), a obesidade, sobretudo no primeiro ano de vida, e dietas ricas em gordura e de baixa qualidade.
Entre os fatores de risco, um merece atenção especial por ser comum e, muitas vezes, aplicado sem orientação: a chamada "injeção anticio". Esses produtos são progestágenos sintéticos (hormônios que imitam a progesterona), vendidos com facilidade em casas agropecuárias e aplicados para evitar o cio e a gestação. O que parece uma solução prática e barata cobra um preço alto. O uso desses anticoncepcionais está diretamente associado ao surgimento de tumores de mama, tanto benignos quanto malignos, além de outras complicações graves, como a piometra (infecção uterina que pode levar à morte), o diabetes e, nas gatas, a hiperplasia mamária, um aumento rápido e doloroso das mamas que pode surgir já após a primeira aplicação. Na rotina clínica, é frequente atender fêmeas com histórico de "vacina para não dar cio" e com múltiplos nódulos nas cadeias mamárias.
A boa notícia é que a prevenção mais eficaz é conhecida, segura e acessível: a castração (ovariectomia ou ovariohisterectomia). Em cadelas, estudos clássicos mostram que a castração antes do primeiro cio reduz o risco de câncer de mama para cerca de 0,5%. Quando feita após o primeiro cio, o risco sobe para aproximadamente 8%; após o segundo cio, para cerca de 26%. Nas gatas, a castração antes dos seis meses de idade reduz o risco em torno de 90%, e antes de um ano, em cerca de 85%. Em outras palavras, o momento da castração faz toda a diferença, e a decisão deve ser conversada com o médico-veterinário ainda quando o animal é filhote. Mesmo em fêmeas adultas, a castração continua trazendo benefícios, como a prevenção da piometra e de gestações indesejadas.
Além da castração, o tutor tem um papel fundamental no diagnóstico precoce. As cadelas possuem, em geral, cinco pares de mamas e as gatas, quatro, distribuídos em duas cadeias ao longo da barriga, do peito até a virilha. Um gesto simples de carinho pode se transformar em cuidado: ao acariciar o abdômen do animal, passe os dedos suavemente sobre as mamas e observe se há caroços, endurecimentos, feridas, secreção, vermelhidão ou dor. Assim como o autoexame nas mulheres, essa palpação não substitui a consulta, mas é a primeira ponte entre o tutor e a saúde do seu animal.
Ao perceber qualquer nódulo, por menor que seja, a orientação é procurar o médico-veterinário o quanto antes. O tamanho do tumor no momento do diagnóstico é um dos fatores que mais influenciam o prognóstico. Nódulos pequenos, retirados cedo, têm chance muito maior de cura. O tratamento de escolha é cirúrgico, com a retirada das mamas acometidas, precedido de exames como radiografia de tórax e avaliações de sangue, para verificar se há metástases e se o animal está apto à cirurgia. A análise histopatológica do tecido retirado confirma o tipo de tumor e orienta os próximos passos.
Há ainda um obstáculo que não aparece nos exames: a desinformação. Mitos como "toda cadela precisa ter uma cria antes de castrar" ou "castrar engorda e deixa o animal triste" continuam afastando famílias da prevenção. Ter filhotes não protege contra o câncer de mama; ao contrário, cada cio aumenta o risco. O ganho de peso após a castração pode ser controlado com dieta adequada e atividade física. Informação de qualidade, vinda de fontes confiáveis, é tão importante quanto o bisturi.
Neste Outubro Rosa, que o laço que enfeita a cidade também nos lembre de quem nos espera no portão todos os dias. Evite o uso de anticoncepcionais injetáveis, converse com o médico-veterinário sobre a castração no momento certo, mantenha o peso do seu animal sob controle e faça da palpação das mamas um hábito. Prevenir é um ato de amor e de responsabilidade. Cuidar delas é, também, cuidar de quem as ama.
Diego Valério de Almeida é Médico-veterinário, coordenador do curso de Medicina Veterinária da Faculdade UNA , mestrando em Ciências da Saúde pela UFSJ-Divinópolis e professor universitário
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