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O toque que salva e o olhar que acolhe

Por UNA · Colunista· 4 min de leitura
O toque que salva e o olhar que acolhe

Outubro chega tingindo o país de rosa, mas o tom que realmente importa nesta campanha não está nas luzes dos monumentos ou nos laços presos às lapelas. O verdadeiro rosa deste mês é a cor do afeto, do pausar e do voltar-se para si. O Outubro Rosa nasceu como um movimento global de conscientização sobre o câncer de mama e, mais recentemente, do colo do útero. No entanto, para além das estatísticas médicas, a campanha carrega um convite urgente que toca no cerne da nossa existência: a prática do autocuidado como um ato de amor-próprio e preservação da vida.

A produção do conhecimento científico e cultural ganha seu verdadeiro sentido quando se traduz em bem-estar para a sociedade. Ao longo da história, o avanço do saber deixou de ser apenas um exercício teórico para se tornar o motor que impulsiona a qualidade de vida, a saúde e o desenvolvimento humano. Na campanha do Outubro Rosa, essa premissa revela toda a sua força: as descobertas da medicina sobre o câncer de mama só cumprem seu papel transformador quando encontram a acolhida da Psicologia para desarmar o medo, desmistificar o diagnóstico e nutrir a coragem. Conectar a inovação acadêmica às necessidades reais do cotidiano é fundamental para transformar descobertas em soluções práticas que desconstruam barreiras emocionais, promovam o autocuidado e garantam uma vida mais plena, equilibrada e justa para todas as mulheres.

Em meio ao ritmo acelerado da rotina diária em nossa cidade, quantas vezes adiamos uma consulta, ignoramos um sinal do corpo ou deixamos o próprio bem-estar no fim de uma interminável lista de prioridades? A resposta para a maioria das mulheres é um silêncio culpado. Culturalmente, ensina-se a mulher a cuidar de todos — da família, do trabalho, da casa —, mas poucas vezes se ensina a importância de ser a própria prioridade.

Sob a perspectiva da psicologia, o autocuidado não é um luxo, um capricho ou um gesto de egoísmo; é uma necessidade básica de sobrevivência e saúde mental. A forma como nos relacionamos com o nosso corpo reflete diretamente a nossa autoestima e o nosso senso de autoeficácia. Quando uma mulher se reserva um tempo para realizar o autoexame, agendar sua mamografia de rotina ou simplesmente escutar os sinais de cansaço da mente, ela está emitindo uma mensagem poderosa ao seu inconsciente: "Eu me importo comigo. Eu mereço existir com saúde e plenitude."

A prevenção, portanto, passa inevitavelmente pelo afeto. Olhar-se no espelho sem julgamentos, reconhecer as transformações do próprio corpo e praticar o toque consciente são passos fundamentais de uma reconexão corporal. O autoexame das mamas não substitui os exames clínicos nem a mamografia — indispensável para o diagnóstico precoce —, mas é a primeira ponte de intimidade que a mulher constrói com a sua saúde. Conhecer o próprio corpo é o primeiro passo para perceber quando algo vai mal.

Contudo, a psicologia nos alerta para as barreiras invisíveis que frequentemente afastam as pessoas do diagnóstico precoce: o medo e a negação. A possibilidade de encontrar algo indesejado pode gerar uma ansiedade paralisante. Muitas pessoas evitam realizar exames por receio do resultado, operando na lógica inconsciente de que "o que não é visto não existe". Superar esse bloqueio exige empatia, informação acolhedora e uma rede de apoio fortalecida. O diagnóstico precoce não deve ser visto como uma sentença, mas sim como a maior chance de cura — superando 90% dos casos quando descoberto no início. O diagnóstico antecipado é a oportunidade de reescrever a história com esperança.

O Outubro Rosa também nos lembra que o cuidado não se faz na solidão. A dimensão social e comunitária da campanha é vital. Famílias, amigos e parceiros desempenham um papel crucial ao incentivar a prevenção e, sobretudo, ao oferecer escuta ativa e acolhimento emocional. Se existe alguém ao seu lado que costuma adiar os cuidados com a saúde, seja a ponte, o lembrete carinhoso, a companhia até o posto de saúde ou a clínica. A empatia cura e o apoio mútuo salva vidas.

Aproveite este mês para ressignificar o seu ritmo. Que a cor rosa em nossas ruas sirva como um lembrete visual para perguntar a si mesma ou àquela mulher que você ama: "Como você está se cuidando hoje?". Faça do autocuidado um compromisso inegociável com a sua trajetória. Se tocar é se conhecer; se cuidar é se amar; e prevenir-se é garantir que o amanhã continue cheio de possibilidades. Agende seus exames, olhe para si com mais carinho e viva a leveza de estar em dia com o seu bem mais precioso: a sua vida.

Flávia Campos é psicóloga, coordenadora de curso da Faculdade UNA Divinópolis, professora universitária e técnica de referência CREAS Divinópolis 


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