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Augusto Ambrosio Fidelis

Soslaio maroto

Por Bruno
Soslaio maroto

Augusto Fidelis

Um amigo meu está depressivo, porque toda a família está em depressão. Para mim, armam tempestade medonha num copo d’água. O problema se explica da seguinte forma: a família não queria enxergar, porém, como neste mundo tudo tem a sua hora, chegou o momento da verdade: sob pressão, o jovem confessou-se homossexual. A mãe, em desespero, brada para os ouvidos de toda a vizinhança: “Meu filho, não faça isso comigo, você vai me matar! Arranje uma namorada, case, dê-me um neto!”

Oscar Wilde, dramaturgo, escritor e poeta irlandês, expoente da literatura inglesa no período vitoriano, foi preso e humilhado perante a sociedade por pertencer à Irmandade. Na volumosa obra que legou à humanidade, escreveu muitas coisas sobre a sociedade, que se mantêm atualíssimas. Certamente, num de seus momentos de angústia, disse ele: “As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros”. Noutro momento, acrescentou: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”.

Sobre este assunto, assisti recentemente a um filme sob o título “Um Amor Quase Perfeito”, que conta a história de uma médica, Antônia. Embora fosse uma excelente profissional, vivia à sombra do marido, Mansine. Confiava nele cegamente, por isso não tinha curiosidade pela vida. Quando perdeu o marido num acidente, descobriu atrás de um quadro uma dedicatória amorosa para o falecido. Decidida a encontrar a tal amante, a viúva leva um susto, que transforma sua vida. Mansine tinha um caso com um rapaz, conhecido no seu meio por Michelly. Injuriada, Antônia busca o motivo pelo qual o marido lhe escondera isso. Oscar Wilde tem a explicação: “Pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal”.

O filósofo francês Jean Paul Satre sentenciou certa vez: “O inferno são os outros”. O amor pode nos levar por caminhos surpreendentes, mas tudo depende de quem nos observa, pois, de modo geral, a gente vive em função dos outros. Os familiares do meu amigo não estão preocupados com os seus conflitos d’alma e muito menos com a sua ânsia de felicidade. Preocupam-se com os comentários maliciosos dos vizinhos, com os olhares de soslaio, enfim, com a mácula que esse desvario pode imprimir à família.

O dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, pernambucano de nascimento, foi criado no Rio de Janeiro, onde ambientou as suas obras, tomando como tema o cotidiano da cidade, em particular “as vizinhas gordas na janela, fiscalizando os outros moradores”. O cenário descrito por Nelson Rodrigues pode ser visto em qualquer lugar. No caso do meu amigo, até então, embora a família se negasse a acreditar, os marotos insistiam: “Seu filho é um menino bom, mas é gay”. Acho que Oscar Wilde tem razão: “O mundo pode ser um palco, mas o elenco é um horror.”

augustofidelis1@gmail.com

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