Vergonha

Não é de hoje que o Congresso Nacional e boa parte dos seus integrantes causa indignação e traz à população um sentimento de vergonha. No início desta semana de feriado uma cena na Câmara dos Deputados confirmou isso sem nenhum esforço. A Casa suspendeu a sessão deliberativa que estava em andamento na tarde desta terça-feira, 9, depois da confusão que se formou no plenário devido ao protesto do deputado federal Glauber Braga (PSOL). Ele se sentou na cadeira do presidente Hugo Motta (Republicanos) e disse que de lá não iria sair. O parlamentar protestava contra o processo do qual é alvo no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar. Isso porque Motta havia dito mais cedo que iria levar o caso ao plenário nos próximos dias. Em protesto, Braga disse que não sairia do lugar do presidente "nem por reza brava"! Aí o "pau quebrou de vez". A polícia legislativa retirou o deputado à força e o resto todos sabem. As imagens estão disponíveis em todos os canais de comunicação para quem não viu "o cabaré". Só não sente constrangido quem é da mesma "laia".
Cerceada
A imprensa que "não tem nada a ver com isso" e estava ali para fazer o seu trabalho, acabou "pagando o pato". Foi impedida de exercer sua função, ouviu gritos de "trogloditas" que se acham e até empurrada. Cena que foi duramente criticada por entidades que representam os profissionais como Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e Associação Nacional de Jornais (ANJ). Obrigados a deixar o plenário por meio de empurrões, não conseguiram registrar as imagens da confusão dos engravatados que dizem representar o povo e deveriam dar exemplo. Lamentável o impedimento da cobertura dos veículos de comunicação. Mas, adiantou? A feiúra que rodou o mundo foi filmada pelos próprios deputados que repassaram "a torto e a direita". Neste cenário abominável não se pode deixar de falar da falta de "pulso forte" do presidente da Casa. E não foi a primeira vez. Em agosto deste ano, ele assistiu de "braços cruzados" parlamentares da direita ocuparem o espaço da Mesa Diretora com as bocas lacradas por fitas por dois dias.
BO
E a insegurança no comando diante da situação vista nesta terça, pode trazer dor de cabeça para o presidente. Glauber Braga formalizou um Boletim de Ocorrência contra Hugo Motta devido à ordem dada à Polícia Legislativa para remover o parlamentar da Mesa Diretora. [O boletim] é contra a Câmara. "A ordem veio dele" disse Braga, que ouviu da boca dos policiais. O parlamentar do PSOL afirma que processo de cassação contra ele por quebra de decoro parlamentar, é uma “ofensiva golpista”. Diante de tudo que houve, a motivação não interessa. O que não pode é acontecer isso na maior casa legislativa do Brasil. Mau exemplo que poderia ter sido evitado e os nobres fecharem o ano com um pouco mais de credibilidade. Se é, que isso é possível.
Na madrugada
O engraçado é que a confusão vergonhosa registrada mais cedo, não impediu que uma sessão para atender interesses próprios varasse a madrugada. Isso apesar de inúmeros apelos para adiar a discussão, o mesmo Motta, protagonista do episódio envolvendo Braga, manteve o PL da Dosimetria na pauta. O texto-base foi aprovado apenas às 2h27 após a oposição derrubar dois requerimentos para tentar adiar a proposta e cinco questões de ordem apresentadas pela oposição para obstruir a votação. Sete horas após o início da extraordinária, o plenário da Casa aprovou, já quase amanhecendo a quarta, 10, a proposta. Foram 291 votos favoráveis e 148 contrários. Sim da maioria que pode reduzir as penas dos presos pelos atos do 8 de janeiro, entre eles o ex-presidente Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos e três meses de prisão. "Esses são os representantes do povo". Viva!
Cai 25 anos
O relator do Dosimetria Paulinho da Força (Solidariedade), se referiu ao PL como um “caminho de equilíbrio” entre a condenação e a anistia ampla, geral e irrestrita. Caso confirmada a aprovação pelo Senado, a pena de Bolsonaro pode cair de 27 anos e três meses de prisão para cerca de dois anos em regime fechado. O argumento central do voto protocolado por Paulinho é a necessidade de “reduzir o cálculo das penas”. Inclusive ele, se um dia precisar. Vai quê! Deixando ainda mais claro e evidente, que a maioria dos políticos fazem leis não para o povo — principal dever — mas para si próprios.
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