Violência não é opinião

A indignação popular, até certo ponto, é legítima. Questionar políticos, cobrar transparência e exigir resultados faz parte da democracia. O que não faz parte e jamais pode ser normalizado é a transformação dessa indignação em ameaça, intimidação e discurso de violência. Quando um cidadão grava vídeos dizendo que “o pau vai quebrar” ou que “vai começar a matar políticos que ficam roubando dinheiro público”, não estamos mais diante de crítica política. Estamos diante de um alerta grave para a sociedade.
O episódio recente envolvendo ameaças direcionadas aos irmãos Azevedo escancara um problema que vai muito além. Ele revela como o debate público tem sido sequestrado por um ambiente de agressividade crescente, potencializado pelas redes sociais, onde o limite entre opinião e crime parece cada vez mais distorcido.
As plataformas digitais deram voz a quem antes não a tinha. Isso pode ser positivo. Mas também criaram um espaço onde o exagero rende curtidas, a agressão vira espetáculo e a violência verbal passa a ser tratada como desabafo. O vídeo em questão não traz provas, não apresenta fatos, não constrói denúncia. Traz acusações genéricas, xingamentos e promessas de violência, embaladas por frases como “nois vai começar a reverter os valores aqui em Divinópolis”, como se a justiça pudesse ser substituída pela intimidação.
Não justifica, nem perto disso, mas é fato que esse tipo de discurso nasce, muitas vezes, de uma crise: a falta de confiança nas instituições, a sensação de impunidade, o cansaço diante de promessas não cumpridas. Mas transformar frustração em ameaça não corrige injustiças; aprofunda o caos. Quando todos os políticos são tratados como inimigos a serem eliminados, o debate deixa de ser político e passa a ser de guerra.
Há também uma responsabilidade coletiva que precisa ser dita. Não basta apontar o dedo apenas para quem ameaça. Quem compartilha, aplaude, relativiza ou trata esse tipo de fala como “coragem” ajuda a empurrar o debate público para um terreno perigoso. A violência verbal não surge do nada; ela é alimentada pela tolerância, pelo silêncio cúmplice e pela banalização do absurdo.
Acusações exigem provas. Crimes se apuram com investigação, não com gritos. Mudanças se constroem com participação política, fiscalização e voto, não com ameaças de morte ou incitação à violência.
No fim das contas, a pergunta que fica não é sobre um episódio de ameaça, por mais grave que tenha sido, mas sobre quem queremos ser enquanto sociedade. Se é uma que aceita o grito, a ameaça e o medo como linguagem política, devemos nos preocupar mais ainda. A democracia não sobrevive quando a violência é tratada como opinião. E ignorar isso é flertar com um futuro onde o debate é substituído pelo confronto.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
