Salário em alta, confiança em queda

A enquete publicada pelo Jornal Agora nas redes sociais escancarou um desconforto que já vinha se acumulando em silêncio. Ao perguntar “O que você espera, em 2026, do vereador que recebeu seu voto?”, a resposta da população foi menos expectativa e mais cobrança. Houve frustração. E, principalmente, recado.
Entre os comentários, a insatisfação aparece sem rodeios. “No mínimo coerência, honestidade e bons projetos para a cidade”, escreveu um leitor. Outro foi ainda mais direto: “Espero nada, depois de dois aumentos no mesmo ano, início dos tickets e agora o salário exorbitante. Nosso dinheiro não é capim”. Há quem já tenha feito a escolha política antecipada: “Nenhum vai ter voto meu, simples assim”. Quando o eleitor chega a esse ponto, não se trata de oposição ideológica, mas de ruptura de confiança.
O estopim desse desgaste tem nome e data. O aumento de 42,22% no salário dos vereadores, aprovado ainda em 2025, segue reverberando como símbolo de um Legislativo que parece ter olhado primeiro para si. Enquanto o salário mínimo teve reajuste de 6,79%, os parlamentares garantiram um acréscimo superior a R$ 5 mil para a próxima legislatura. Legal? Sim. Constitucional? Sim. Politicamente desastroso? Também.
A reação popular deixa isso claro. “Só defendem o salário deles”, escreveu um seguidor. Há ainda quem vá além e peça revisão: “Espero que volte com o projeto de aumento ‘maluco’ de salário que fizeram ao apagar das luzes de 2025”. Outro questionou: “Até hoje não tiveram coragem de falar sobre o aumento que votaram”. O silêncio que se seguiu à votação ampliou a sensação de distanciamento. Na política, não explicar é escolher ser interpretado. E a interpretação, nesse caso, não foi favorável.
É preciso lembrar que mandato não é benefício pessoal, é representação. O vereador não foi eleito para testar limites legais, mas para defender interesses coletivos. A justificativa de recomposição inflacionária pode até sustentar o papel, mas não sustenta o sentimento de quem enfrenta dificuldades diárias e vê seus representantes priorizando ganhos próprios logo no primeiro ano de legislatura.
Ainda há tempo para mudar esse cenário. O mandato já se aproxima da metade, e este é o momento de acelerar, corrigir a rota e transformar promessas em entregas, antes que seja tarde demais. Mas isso não virá com discursos vazios ou projetos de efeito para redes sociais. Virá com trabalho concreto, presença nos bairros, propostas que melhorem a vida da cidade e disposição para abrir mão de privilégios quando necessário. Como escreveu um leitor: “Que trabalhem e produzam algo realmente benéfico para toda a população de Divinópolis”.
A enquete foi apenas um teste. Um espaço para dar voz a quem acreditou nos representantes escolhidos nas urnas e hoje cobra retorno. A mensagem é clara e direta. A população está atenta, acompanha cada movimento e não vai esquecer das decisões nas próximas eleições. O recado esta dado: “mais trabalho, menos vídeos e menos mimimi”. É isso que se espera de uma Câmara que hoje custa R$ 207.835,03 por mês ao município apenas em salários de vereadores e que, no próximo mandato, passará a custar R$ 365.107,80. A conta é pública e a cobrança também. Porque, no fim, é o eleitor quem avalia, cobra, mas também quem paga a conta.
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