A liderança que custa vidas

Janeiro marca, no Brasil, a campanha do Janeiro Lilás e o Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado no dia 29. A data existe para dar nome, rosto e voz a uma população historicamente empurrada para a margem. Mas os números mais recentes mostram que visibilidade simbólica, sozinha, não tem sido suficiente para garantir o direito mais básico de todos: o direito à vida. Celebrar essa data, diante da realidade brasileira, é também reconhecer o quanto ainda falhamos enquanto sociedade.
Pelo 17º ano consecutivo, o Brasil permanece como o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Em 2025, ao menos 80 pessoas foram assassinadas por sua identidade de gênero. Houve redução em relação ao ano anterior, mas os próprios dados alertam: queda numérica não significa avanço estrutural. Pelo contrário. Subnotificação, ausência de políticas públicas consistentes, retração da cobertura da imprensa e dificuldade de monitoramento fora das capitais ajudam a mascarar uma violência que continua presente e sistemática.
Nesse cenário, Minas Gerais ocupa um lugar que deveria causar constrangimento coletivo. O estado lidera, ao lado do Ceará, o ranking nacional de assassinatos de pessoas trans em 2025, com oito mortes registradas. Na série histórica entre 2017 e 2025, Minas acumula 100 assassinatos, figurando entre os estados mais letais do país. Oscilações anuais não representam segurança, apenas revelam o quão frágil é a capacidade de registrar, acompanhar e proteger essas vidas.
Os dados também desmontam qualquer tentativa de tratar o problema como pontual ou restrito a grandes centros urbanos. Em 2025, quase 70% dos assassinatos ocorreram em cidades do interior. A violência se interiorizou, ganhou novos territórios e se tornou ainda mais invisível. Fora das capitais, há menos redes de apoio, menos serviços especializados e menos atenção da imprensa. A morte acontece longe dos holofotes, e o silêncio que se segue é parte da própria violência.
Por trás dos números, há um padrão que se repete ano após ano. As principais vítimas são travestis e mulheres trans, majoritariamente jovens, negras e em situação de alta vulnerabilidade social. Muitas dependem do trabalho sexual como fonte de renda. Não se trata de acaso, mas de um retrato cruel da exclusão social, da falta de acesso a direitos básicos e da discriminação estrutural que empurra essas pessoas para contextos de maior risco.
Os dados deixam isso evidente. A maioria das vítimas são jovens, muitas vezes entre a adolescência e o início da vida adulta. Pessoas que mal tiveram tempo de existir plenamente, de construir futuro, de envelhecer. A população trans, no Brasil, não morre apenas de forma violenta — morre cedo. E isso não é coincidência, é consequência direta da exclusão, da negligência do Estado e da indiferença social.
Enquanto o debate sobre identidade ainda é tratado como “polêmica” e não como questão de direitos humanos, vidas seguem sendo interrompidas antes do tempo. Enquanto a violência for relativizada, subnotificada ou empurrada para estatísticas frias, o país continuará liderando rankings que não deveriam existir. Não se trata de visibilidade no calendário, mas de permanência na vida. Campanhas e datas simbólicas não substituem políticas públicas permanentes.
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