A estação das doenças silenciosas: por que o outono adoece nossas crianças?

Com a chegada do tempo seco e das temperaturas mais baixas, cresce o número de internações por bronquiolite, bronquite, asma e pneumonia em menores de 12 anos. Prevenção começa em casa.
Toda mudança de estação traz consigo um fenômeno previsível nos consultórios pediátricos e prontos-socorros de todo o Brasil: filas de crianças com tosse persistente, chiado no peito, febre baixa e dificuldade para respirar. Em abril, quando o outono se instala de vez e a umidade do ar começa a cair, esse cenário se intensifica, e a atenção dos pais precisa ser redobrada.
As doenças respiratórias são, há décadas, uma das principais causas de hospitalização infantil no país. Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 30% das internações pediátricas em período outono-inverno estão relacionadas a infecções e inflamações do sistema respiratório. O grupo mais vulnerável? Crianças entre seis meses e cinco anos de idade, cujo sistema imunológico ainda está em pleno desenvolvimento. O ar seco resseca as mucosas do nariz e da garganta, que são a primeira barreira de defesa do organismo contra vírus e bactérias. Quando essa barreira falha, o caminho fica livre para infecções.
As doenças mais comuns do período
Entre as condições que mais afetam crianças nessa época, destacam-se a bronquiolite viral, especialmente em bebês menores de dois anos, causada principalmente pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR); a bronquite aguda, caracterizada pela inflamação dos brônquios; a pneumonia, infecção grave que pode exigir internação; e a asma, cujas crises tendem a se intensificar com as variações climáticas.
A rinite alérgica e a sinusite também se manifestam com mais frequência. O ar seco e a maior concentração de poluentes — uma vez que as chuvas diminuem e a ventilação natural piora nos meses mais frios — são fatores que agravam o quadro de crianças que já possuem predisposição alérgica.
Sinais de alerta que exigem atenção imediata
Nem toda tosse ou coriza precisa de corrida ao pronto-socorro. No entanto, alguns sinais indicam que a situação é urgente: dificuldade para respirar ou respiração muito rápida; chiado intenso no peito; lábios ou pontas dos dedos com coloração azulada; febre acima de 38,5°C em bebês menores de três meses; prostração intensa, recusa alimentar e sonolência excessiva.
Nesses casos, a orientação dos especialistas é unânime: buscar atendimento médico sem demora. A identificação precoce do agente causador, viral ou bacteriano, é fundamental para definir o tratamento correto. O uso indiscriminado de antibióticos, pode fazer mais mal do que bem quando a causa é viral.
Prevenção: simples medidas que fazem diferença
A boa notícia é que grande parte dos casos pode ser evitada com medidas simples. Manter os ambientes ventilados, mesmo no frio, evita a concentração de vírus no ar. Umidificadores ajudam a manter a umidade em níveis adequados. Lavar as mãos com frequência continua sendo uma das estratégias mais eficazes contra a transmissão de vírus respiratórios, soro no nariz é vida: não espere o nariz entupir. Lavar as narinas com soro fisiológico várias vezes ao dia é a melhor forma de manter o "filtro" natural do corpo funcionando. Evitar levar crianças pequenas a ambientes fechados e com grande circulação de pessoas, como shoppings e transporte público em horários de pico, é outra recomendação importante durante o período de maior circulação de vírus. Hidratação é remédio: água ajuda a deixar o catarro mais líquido e fácil de ser eliminado.
O papel da família
Por fim, observar a criança com atenção é a ferramenta mais poderosa que um cuidador tem. Conhecer os padrões habituais de respiração, sono e alimentação do filho ajuda a identificar quando algo está fora do comum, antes mesmo que os sintomas se agravem. Se o seu filho está com febre ou tossindo muito, o ideal é que ele fique em casa. A gente sabe que a rotina de trabalho é difícil, mas mandar a criança doente para a escola sobrecarrega o organismo dela e inicia um ciclo onde todos os amiguinhos acabam pegando a mesma doença. Nessa estação, cuidar bem é, antes de tudo, estar presente.
Juninho Valadares é farmacêutico, doutor em ciências da saúde, mestre em ciências farmacêuticas, pós-graduado em análises clínicas e toxicológicas, em farmácia estética e em gestão da excelência nas organizações de saúde. Professor no centro universitário UNA Divinópolis e Bom Despacho.
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