Atitudes e comportamentos: o Dia das Mães - entre o consumo e a reconstrução dos afetos

O comportamento humano é profundamente marcado por rituais de passagem e datas cíclicas. O Dia das Mães funciona como um desses potentes gatilhos psicológicos: ele desperta o desejo de reparação, a necessidade de pertencimento e, por vezes, um sentimento de culpa que tentamos aplacar através do consumo. É fascinante observar como, em um único dia, as complexas dinâmicas de poder e afeto das famílias brasileiras são colocadas sob um holofote, revelando tanto o nosso desejo de conexão quanto as nossas falhas estruturais como sociedade.
O fenômeno comercial nos convida a refletir sobre um momento da conveniência ou do tributo? Não há como negar que o Dia das Mães é a segunda data mais importante para o varejo brasileiro, superada apenas pelo Natal. Setores como vestuário, perfumaria e eletrônicos registram picos de venda, impulsionados por um desejo genuíno de presentear. Contudo, essa faceta comercial frequentemente mascara uma armadilha: a mercantilização do afeto.
Muitas vezes, o ato de comprar substitui a presença e o diálogo. A sociedade de consumo nos induz a acreditar que o valor do presente é proporcional ao amor sentido, o que gera pressões financeiras desnecessárias e um sentimento de vazio após o evento. O marketing moderno explora a vulnerabilidade emocional, vendendo a ideia de que um objeto pode "compensar" a ausência física ou emocional ao longo do ano. O desafio não é demonizar o presente — um gesto de carinho legítimo —, mas garantir que ele seja um coadjuvante de uma celebração muito maior.
Percebendo a maternidade sob a lupa social, ao celebrarmos a "mãe", precisamos questionar qual imagem estamos exaltando. Por muito tempo, o senso comum romantizou a figura materna como um ser de sacrifício ilimitado e paciência inesgotável. Essa visão é perigosa, pois invisibiliza a sobrecarga mental e física que recai sobre as mulheres.
A sociedade impõe um padrão de "mãe heroína" que, na prática, serve para justificar a falta de políticas públicas e a ausência de participação masculina no cuidado. Precisamos discutir nesse contexto a dupla jornada, onde grande parte das mães equilibra o trabalho remunerado com a gestão invisível do lar; a maternidade solo, que aponta milhões de lares chefiados exclusivamente por mulheres, evidenciando o abandono afetivo e material por parte de muitos pais; saúde mental com o esgotamento materno (burnout parental) expõe uma realidade que floresce no silêncio da romantização.
O apoio social deve ir além das flores; ele exige ambientes corporativos flexíveis e uma rede de apoio que realmente funcione, permitindo que a maternidade não seja um impeditivo para a realização pessoal e profissional.
É imperativo que melhorando as relações parentais, através do diálogo, transformamos essa data em um marco de melhoria nas relações. O segredo reside na transição da "idealização" para a "humanização". Ver a mãe como um indivíduo com desejos, medos e limitações. Ela não é um arquétipo infalível, é uma pessoa que comete erros e tem necessidades próprias.
O processo de divisão de responsabilidades ajuda a melhorar a relação parental passando obrigatoriamente pela redistribuição do cuidado. O "ajudar" deve dar lugar ao "compartilhar". A responsabilidade deve ser um peso dividido para que o afeto possa florescer com leveza. Em um mundo hiperconectado, o maior luxo é a atenção plena. Um almoço sem celulares ou uma conversa profunda sobre a história de vida daquela mulher pode ter mais impacto que qualquer objeto material.
Desta forma, estaremos promovendo a reflexão coletiva. O Dia das Mães deve ser um espelho da sociedade que desejamos construir. Se aspiramos por relações parentais mais saudáveis, precisamos de uma estrutura que permita o tempo de qualidade. Isso envolve discutir licença-paternidade estendida, equidade salarial e o fim do julgamento social constante sobre as escolhas das mulheres.
Que o domingo festivo para celebrar o vínculo, sim, mas também para plantar sementes de mudança. Que o presente seja apenas o convite para uma presença mais consciente, e que a homenagem se estenda por todos os outros dias do ano na forma de respeito e divisão justa de fardos.
"Maternidade não é destino, é construção. E, como toda construção, precisa de alicerces sólidos de respeito, apoio e autonomia."
Em última análise, o comportamento humano tende a buscar o caminho mais fácil — o do consumo imediato. No entanto, a verdadeira evolução nas relações parentais exige o caminho mais difícil: o da escuta ativa e da desconstrução de papéis de gênero obsoletos. Honrar uma mãe é, acima de tudo, garantir que ela tenha o direito de ser uma mulher plena, descansada e, sobretudo, amada por quem ela realmente é, e não apenas pelo que ela faz pelos outros.
Flávia Campos
Psicóloga, professora universitária e
Coordenadora de Curso
UNA Divinópolis
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