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A vítima por trás dos golpes digitais

Por Redação Jornal Agora · Redação· 4 min de leitura
A vítima por trás dos golpes digitais

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“Como alguém ainda cai num golpe desses?”

A pergunta surge quase automaticamente quando sabemos que outra pessoa foi vítima de uma fraude. Conhecendo o desfecho, os sinais parecem evidentes. Para quem estava do outro lado, porém, a história começou de maneira diferente.

Entre os muitos golpes digitais, o “golpe do falso advogado” tornou-se especialmente preocupante. Criminosos se apresentam como advogados e abordam pessoas que possuem processos, anunciando uma boa notícia: o êxito na demanda e a existência de valores a receber.

A fraude ganha força ao misturar dados verdadeiros, informações fora de contexto e falsidades. O nome e a fotografia do advogado podem ser verdadeiros. O processo existe, as partes estão corretas e até o valor apresentado pode ter sido extraído dos autos. É comum que golpistas utilizem o valor da causa como se correspondesse à quantia efetivamente conquistada pelo cliente — conceitos muito diferentes no processo judicial.

O criminoso não precisa construir uma relação de confiança. Apropria-se de uma que já existe e explora a expectativa de receber aquilo que se pediu ao Judiciário.

Talvez devamos inverter a pergunta inicial. Em vez de indagar como alguém caiu no golpe, é mais útil compreender quais mecanismos o fizeram acreditar.

Esse deslocamento do olhar não é estranho à Criminologia. Se os estudos sobre o fenômeno criminal concentraram-se por muito tempo no crime e em seu autor, a Vitimologia ampliou a perspectiva ao investigar também a vítima e as circunstâncias da vitimização.

Estudar a vítima não significa responsabilizá-la pelo crime. Compreender a vulnerabilidade é muito diferente de culpar quem foi enganado. Escolaridade, profissão, experiência ou familiaridade com tecnologia não nos tornam imunes à manipulação. O golpista não precisa encontrar uma pessoa permanentemente vulnerável; basta encontrar uma pessoa em um momento de vulnerabilidade.

Confiança, medo, ansiedade, expectativa e pressa são experiências humanas comuns. É sobre elas que atua a chamada engenharia social: o criminoso manipula percepções e comportamentos para conduzir a vítima à ação desejada. No golpe do falso advogado, a tecnologia é o meio; a confiança é, muitas vezes, a verdadeira ferramenta.

O mecanismo se repete em outras fraudes. Nas vendas fraudulentas, por exemplo, muda-se o enredo: produto desejado, oferta vantajosa, imagens convincentes e algum motivo para decidir rapidamente. “Há outro interessado”, “o preço vale somente hoje” ou “faça o Pix para reservar” buscam o mesmo resultado: agir antes de conferir.

A urgência merece especial atenção. Depois de construir uma narrativa coerente, o golpista reduz o tempo para reflexão. Quanto menor o intervalo entre acreditar e agir, menor a oportunidade de desconfiar ou confirmar a informação. No ambiente judicial, essa urgência quase nunca existe. Valores reconhecidos judicialmente não desaparecem porque o cliente deixou de realizar um Pix nos minutos seguintes. Se alguém associa processo, promessa de recebimento e pagamento imediato, a pressa deve produzir o efeito contrário daquele pretendido pelo golpista: parar.

Quando o golpe se concretiza, porém, o olhar frequentemente retorna à vítima: “Como não percebeu?”, “por que não conferiu?”, “estava tão óbvio”. São perguntas feitas com a vantagem de quem já conhece o final da história.

Além do prejuízo financeiro, podem surgir vergonha e culpa. Esse constrangimento pode levar ao silêncio ou à demora em pedir ajuda justamente quando a rapidez é importante para comunicar a instituição financeira, registrar a ocorrência, tentar impedir a continuidade da fraude e buscar orientação jurídica para avaliar eventual responsabilidade das instituições envolvidas na transação.

Compreender a vitimização não elimina o dever de cautela; torna essa cautela mais eficiente. É pouco útil dizer apenas que não devemos confiar em desconhecidos quando muitos golpes são construídos precisamente para que o interlocutor não pareça um desconhecido.

Diante de cobrança inesperada, oportunidade excepcional ou boa notícia acompanhada de exigência imediata, pare. Confirme por outro canal. No falso advogado, ligue para o número do profissional ou escritório que você já possuía. Nomes, fotografias, documentos e dados verdadeiros podem ser utilizados por terceiros. Informação verdadeira não é prova de identidade.

A tecnologia tornou as fraudes mais convincentes, mas são características profundamente humanas que continuam sendo exploradas. Reconhecer isso talvez nos torne mais cuidadosos e menos dispostos a julgar quem foi enganado.

Da próxima vez que soubermos que alguém caiu em um golpe, talvez valha substituir “como essa pessoa pôde acreditar nisso?” por uma pergunta bem mais útil: “o que faria esse golpe parecer verdadeiro para mim?”

Angélica Campos é advogada, OAB/MG 88.672, e Subdelegada da CAA/MG na Subseção de Divinópolis


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