Carta para Castro Alves

LEOLINO E PÓRCIA – CAP. XXIX
Ilmo. Sr. Poeta,
Antônio Frederico de Castro Alves,
Saudações!
Sinto-me extremamente emocionado pela oportunidade de ser um instrumento do porvir ao escrever esta carta, endereçada à vossa senhoria.
Em seu poema Mocidade e Morte, disseste: "...Eu sinto em mim o borbulhar do gênio... Vejo além um futuro radiante. Avante! Brada-me o talento na alma e o eco ao longe me repete – Avante!"
Certamente, aquela era uma voz profética, pois o futuro haveria de transformá-lo em um mártir da redenção da raça negra. Com seu verbo refulgente e inigualável, haverias de advogar a sublime causa dos escravizados… Embora eu esteja no século XXI, sua voz permanece viva, ecoando com a mesma força com que denunciou injustiças e defendeu as paixões sublimes. Mesmo tendo morrido na flor dos anos, deixaste um imenso legado poético, contra as tempestades das opressões. Principalmente no poema Navio Negreiro, sentimos o peso das correntes, ensinando que a arte deve ser uma bandeira contra qualquer tipo de injustiça.
Contudo, grande mestre da poética brasileira, venho lhe falar sobre um fato ocorrido no sertão baiano em pleno século em que vossa senhoria estava. A jovem Pórcia, sua amada tia, se envolveu com um homem casado, chamado Leolino, resultando dessa paixão uma tragédia sem precedentes na história baiana. O fato, obviamente, foi repassado de geração em geração e chegou até nós com acréscimos e subtrações, próprios da vaidade humana. Sei, através de seus biógrafos, que sofreste intensamente por um amor impossível de ser concretizado. Refiro-me à atriz Eugênia Câmara, mulher altamente talentosa, que possuía outros planos e resolveu abandoná-lo por outro amor compartilhado.
Tal experiência amadureceu muito o seu olhar sobre as paixões humanas. A cultura da época tinha padrões de rigidez absoluta no tocante à preservação dos laços familiares e, obviamente, talvez fosse influenciado a condenar a atitude dos referidos amantes. No entanto, entendo eu que o ser poético que borbulhava dentro desse peito sublime tinha outra visão... "A águia contempla apenas a majestade das montanhas..." Sua opinião, mesmo dividida entre o corpo e a alma, será de grande proveito para nossa visão de mundo. Ao amante, importa apenas o momento da conquista e o prazer de tê-la conseguido, e essa fraqueza deve ser compreendida. Concordas, grande poeta?
A Bahia, que nos concedeu sua poesia de luxo e sangue, também nos concedeu a oratória de Rui Barbosa e inúmeros outros valores da literatura e da vida social. Justiça seja feita: grande destaque é a figura incomparável do baiano Jorge Amado. Devo esclarecer que, dentre os amantes de sua poesia, ele está entre os primeiros da fila. Inclusive, escreveu o clássico livro ABC de Castro Alves. Nela, o extraordinário romancista descreve com riquezas de detalhes a sua biografia, dando ênfase ao rapto de sua tia, Pórcia. Infelizmente, houve um desencontro histórico entre os dois gênios da literatura brasileira.
Aguardo ansiosamente a resposta dessa minha humilde carta, cônscio de que estou, diante do maior mar da história da poesia brasileira.
Abraço de seu irmão de sonho,
João Carlos Ramos
Obrigado!
jocarramos@gmail.com
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