Carta para Machado de Assis

LEOLINO E PÓRCIA - CAP> XXVII
Exmo Sr.
Presidente da Academia Brasileira de Letras,
Escritor Joaquim Maria Machado de Assis
Saudações!
Escrevo-lhe esta carta, a fim de obter a tua balizada e culta opinião sobre um fato ocorrido no sertão baiano, cujo teor parece, indubitavelmente, com suas histórias que marcaram época na literatura brasileira.
Refiro-me ao rapto de Pórcia, a tia de Castro Alves, o gênio da poesia que Vossa Excelência contribuiu para galgar os degraus da fama. Inúmeros biógrafos o retratam como o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Em pleno século XXI, todos estão aquém da multiplicidade de seu talento. Sua obra-prima, Memórias Póstumas de Brás Cubas, recentemente, foi redescoberta pela crítica Norte-americana e alcançou um sucesso mundial, de proporções inusitadas.. Os mesmo biógrafos, retratam seu nascimento e carreira literária, como paradoxal: Nascido em berço humilde, autodidata e neto de escravo alforriado... Fundaste a Academia Brasileira de Letras, sendo seu primeiro presidente . Escreve 19 romances, 220 contos, 10 peças teatrais, 5 coletâneas de poemas e sonetos e mais de 600 crônicas, além de críticas literárias e inúmeras correspondências. Diante de todo esse currículo invejável, qualquer escritor se sentiria minúsculo. A escola realista, da qual sois pai e mestre nacional, requer de Vossa Excelência, todo o rigor da escrita, coadunando com as realidades sociais. Os comportamentos das diversas classes, são compreendidos pelo senhor, como peças de um jogo de xadrez, arquitetado pelo destino, aliados às inquestionáveis ações do livre-arbítrio. Queiras analisar com requintes de robustez literária, sendo o assunto de extrema seriedade. Um autor chegou a comparar o fato como "A guerra de Tróia brasileira". A paixão devastadora, resultou numa guerra que durou dez anos, morrendo inúmeros inocentes das duas famílias do casal de amantes. Vossa Excelência daria razão ao Leolino, que sendo casado,mas ainda jovem,raptasse Pórcia,como única alternativa para satisfazer seus instintos? Ou ele foi movido por um amor inabalável que o cegou para todas as consequências, advindas de seus atos? Opinas, também à favor de Pórcia, que mesmo sendo jovem e descompromissada, teve o coração assaltado por uma arma, composta de flores?
Por outro lado,darias razão às famílias inocentes,que no dizer dos senhores da época, foram vítimas de um casal de irresponsáveis e criminosos? Talvez, encontres razões de ambos os lados e resolvas
condenar a todos com sua pena de poder implacável. Estou ansioso para saber qual é a sua opinião, diante dos fatos. O famoso escritor Jorge Amado, descreve a cena fatal em seu livro ABC DE CASTRO ALVES: "...Pórcia sentia seus olhos arrastados por ele e um tremor a percorria toda vez que seus olhos negros de espanhola, cruzavam com os olhos negros de Leolino Canguçu, jovem forte como um cavalo selvagem, daqueles que ela vira correr nos campos de Caetite, árdego e insinuante. Pórcia bem sabia que havia uma lei da honra no sertão... Uma donzela, não poderia erguer os olhos para um homem casado, ainda que ele fosse belo, jovem e altamente sedutor. Mas, o que era tudo isso diante dos olhos de Leolino que a chamavam, diante de seus lábios que pediam beijos. Que valem as leis, diante do amor ? ..."
E tu, mestre dos mestres da literatura brasileira, o que dizes?
Aguardo, ansioso,sua resposta!
Atenciosamente,
João Carlos Ramos
jocarramos@gmail.com
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