Carta para Cruz e Souza

LEOLINO E PÓRCIA - CAP. XXIV
Divinópolis, 03 de Dezembro de 2025
Saudações!
Grande poeta e resplandecente luzeiro em meio à ignorância do verbo em pleno numa era, ainda pacata, no que tange à evolução social! Venho, respeitosamente, tocar em uma ferida que não é tua.
Me refiro ao fato ocorrido no sertão baiano em pleno século XIX, época em que o seu grande gênio era comentado em todas as rodas sociais e literárias. Leolino era um homem casado e raptou a jovem Pórcia. Iniciou-se então uma tragédia que duraria dez anos. Era comum na época "lavar a honra com sangue..." Sei que seus poemas nascem no silêncio profundo das almas raras. Sua palavra, chama sagrada, ergue-se além do tempo, além das dores que o mundo te impõe. Sempre triunfante, como astros em festa no mundo diferenciado da poética desnuda e extremamente bela. Chegou até nós,do século XXI, através de renomados biógrafos, as suas lutas e glórias, principalmente no Rio de Janeiro. O seu livro de estréias, Broquéis, foi uma imensa explosão no deserto e ele provocou o desnudar da hipocrisia e do racismo, horripilante e extremamente cruel da sociedade de então. O teu sucesso, Cruz, não foi acaso, mas destino de quem carrega no espírito a música secreta das esferas e a coragem de tocar o que em muitos,adormecem. Dito isto, gostaria de saber qual foi o impacto que sua alma sentiu, ao tomar conhecimento dos fatos, acima retratados, uma vez que os protagonistas do desenrolar dos fatos, não tiveram a oportunidade de se defenderem da crucificação iminente de ambos. Tenho lido de sua paixão por sua esposa Gavita e como as ondas da insanidade provocada,a arrastava... ( mudos atalhos afora,na soturnidade de alta noite,eu e ela caminhávamos...Eu no calabouço sinistra de uma dor absurda,como de feras,devorando entranhas... - Balada de loucos) Sentias algo inexprimível, clamando Justiça imediata ao Céu. Assim também, grande poeta, creio eu que terias ficado na pele do casal condenado pela sociedade e em silêncio sepulcral, meditando apenas no amor,na paixão sem medidas. A opinião de sua pena luminosa, faria de mim um observador,ainda mais atento, antes do julgamento antecipado. Sei que tua palavra é miragem de cristal, cisne negro, perfume raro que passou despercebido. Em teus símbolos, o mundo se recria. O vago, torna-se chama indizível e o impossíve, estrela. Irias chorar intensamente por causa de Pórcia e darias um oportunidade áurea para Leolino explicar,qual foi a intensidade do brilho do olhar da belíssima Pórcia, que o fez estagnar em sua consciência plena e optar por uma paixão fatal e selvagem, em floresta virgem, longe de todos os olhares. Tu dirias, creio eu que o amor salta montanhas e deixa explicações para depois. Rios de sangue derramados unicamente por causa do amor correspondido (diga- se de passagem...) Pórcia se sentiu a mais feliz de todas as mulheres ao constatar que um homem, desafiou um império por sua causa e agora a levava para o silêncio das matas, onde somente os pássaros, poderiam parabeniza-los com seus cantos. E por falar nisso, lembras-te da poesia ardente e apaixonada do sobrinho de Pórcia, Castro Alves ? Ele diz ; " ... Não precisas de ti! O gaturamo, geme por ele à tarde no sertão e a juriti no taquaral do ramo, povoa soluçando a solidão ! "
Termino esta, sabendo que, mesmo que dois séculos nos separam, a eternidade nos unem em torno da justiça e nossas vozes certamente se uniriam para louvar, sempre o amor. Os julgamentos, nós deixaremos para quem é de direito. Espero não ter sido enfadonho, pois eu estou diante de um gênio. Diante do pai do simbolismo brasileiro. Sua poesia,me leva à euforia e não poderia poupar palavras
de verdade e bom senso.
Aguardo resposta luminosa. Paz e bem sempre!
Obrigado!
jocarramos@gmail.com
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