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João Carlos Ramos

Carta Para Leonino

Por Bruno
Carta Para Leonino

Leolino e E Pórcia- CAP XXII

João Carlos Ramos

Senhor Leolino Pinheiro Canguçu,

Saudações!

Publiquei uma carta, na semana passada, enviada à sua eterna amante, Pórcia, e confesso que muito me emocionei. Permita-me apresentar: Resido no município de Divinópolis/MG e sou colunista semanal do Jornal Agora, a convite da ilustre senhora Gisele Souto. Lembra-te daquela terra esquecida entre as montanhas da Bahia do século XIX ? O seu coração, incendiou  famílias, outrora harmônicas. O senhor rompeu o fio da prudência, se deixando envolver pela beleza inquieta e selvagem de Pórcia. O adultério, descoberto em um  amanhecer de rumores, foi apenas a primeira flecha. Homem de temperamento feroz, via apenas o farol incandescente do olhar da bela Pórcia. Aquela paixão proibida, resultou em  dez anos de derramamento de sangue. A terra tremeu de amor e ódio. A noite parecia não ter fim, e a lua  não queria opinar, por ser inspiradora dos amantes em disponibilidade.

O seu romance sangrento com a  jovem  Pórcia, passado dois séculos, seria recorde de bilheteria em um filme de custos milionários. Um biógrafo, disse que seu casamento político estava desmoronando aos poucos. Incompatibilidade sexual, interferência excessiva dos familiares e até mesmo, problemas religiosos. Eras  como touro selvagem numa noite sem lua. Um amigo íntimo, havia lhe  alertado sobre a possível infelicidade em   seu casamento. Inúmeros motivos e conhecimentos de causa, como casamento sem amor, levado pelo vento dos instintos eróticos e desavenças patrimoniais e familiares, próprias daquela época. Querias pastos verdejantes e compromisso, apenas com uma paixão avassaladora e correspondente. Justamente naquela noite fatídica, havias discutido intensamente com sua esposa... Por outro lado, Pórcia estava  lindíssima, com cabelos soltos e perfumados. Na sala, ela te olhava como a gazela olha para a fonte cristalina.  (Isso é pura  verdade!...). Seus olhos  se cruzaram e chegou a hora dos corações falarem. Surgiram as erupções naturais de um homem, ainda jovem. Segundo  biógrafos de credibilidade, houve uma confissão no ouvido dela.  Somente ela poderia saber. Era um convite? (Provavelmente era, não é, Leolino?)Infelizmente, no desenrolar das consequências, a vila, que outrora vivia de colheitas e festas, agora   vivia de funerais. Duelos ao entardecer... Preso entre a paixão e o remorso, a luta não era mais sua, mas do  povo, das famílias enlutadas que juravam vinganças recíprocas. A verdade é que Leolino viveu seus poucos dias, como um fantasma da própria sorte. Lembrado, não como amante, nem como traidor, mas como um homem, cuja paixão acendeu dez anos de guerra e tingiu o chão de sangue inocente.  Dizem que alguns que  homens, não nascem para a tragédia, eles a invocam. Leolino, foste um deles! A guerra de dez anos, cuja escuridão até hoje é dita em voz baixa, como se ao pronunciar seu nome, trouxesse de volta os mortos. O vilarejo virou campo de caça. Homens desapareceram no mato, mulheres enlouqueceram, aguardando os maridos que jamais voltariam. Crianças, aprenderam a correr, ouvindo qualquer ruído. Pânico  total. O medo passou a ser a comida diária. A bandeira da paz era um sonho longínquo, pois todos costumavam até mesmo  com as mortes que julgavam necessárias. Dizem alguns supersticiosos da época, que toda meia-noite,  pessoas ouviam gargalhadas do demônio, no meio do milharal e todas as crianças e mulheres escondiam, tremendo, debaixo das camas rústicas. Não posso te julgar Leolino!  Segundo as crenças bíblicas, haverá a ressurreição de todos os mortos no dia do juízo  final  e Deus baterá o martelo, pronunciando as sentenças. Quem sabe o olho que tudo vê, te absolverá e até irá  liberar a Pórcia para que se case com você. Tudo é possível para quem crer!  Ficou feliz? Até lá... Boa sorte!

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