Carta para José do Patrocínio

LEOLINO E PÓRCIA – CAP. XXVIII
Divinópolis, 03 de janeiro de 2026
Ilmo. Sr. Jornalista, José Carlos do Patrocínio, Saudações! Tomo a liberdade de escrever esta carta, direcionada ao paladino da justiça brasileira, no dizer de Joaquim Nabuco e na verve do príncipe dos poetas brasileiros, Olavo Bilac: "ao profeta, sonhado pela raça negra, dentro de uma tempestade de raios e de flores, acendendo cóleras, pensando feridas, despedaçando grilhões, fulminando orgulhos, beijando cicatrizes, ateando o fogo em que se havia de purificar o Brasil". Refiro-me ao Tigre da Abolição, José do Patrocínio. Sei que sois amigo da Princesa Isabel e muito mais amigo de todos os negros escravizados, apenas por serem filhos da noite. Permita-me apresentar-me: meu nome é João Carlos Ramos. Sou poeta da Academia Divinopolitana de Letras e cronista do Jornal Agora, de Divinópolis/MG. Tentei ser advogado, mas o destino me abriu o caminho da poesia. Sou apenas um poeta. Existe autoridade de maior representatividade, em nome do amor e do sofrimento sem causa, do que um artífice do verso? Permita-me relatar um fato ocorrido no sertão baiano, o qual resultou em um banho de sangue que durou dez anos. Refiro-me ao rapto de Pórcia, cometido por Leolino. Como jornalista que sois, talvez não tivestes tempo para aprofundar-vos no assunto, visto ser sua preocupação maior a causa abolicionista. Admiro muito seu estilo e a cachoeira exuberante de sua oratória em defesa dos desprotegidos. A abolição trouxe alívio para os escravizados, mas trouxe, infelizmente, outro cativeiro: as favelas, onde habitam milhares de pessoas com diversos sofrimentos sociais crescentes. A bela Pórcia, tia do poeta Castro Alves, encantou-se por um homem casado chamado Leolino e aceitou fugir com ele rumo às matas virgens, longe de todo alvoroço e reprovações. No princípio, correu tudo às mil maravilhas. Leolino jurava amor eterno e prometia defendê-la de qualquer invasor, por mais forte que fosse. Contudo, as emboscadas existem para os fortes. Em momento oportuno, Pórcia foi levada por jagunços inimigos que, antes, despedaçaram com facões a criança filha daquele amor proibido. Pórcia foi devolvida à casa de seus pais... Ao regressar ao ninho de amor, Leolino chorava e gritava, jurando vingança eterna contra aqueles malditos assassinos! A partir de então, iniciou-se uma carnificina de proporções alarmantes que duraria dez anos. O que me dizes deste amor proibido e de suas consequências brutais, jamais vistas na Bahia? Tendes a pena de habilidoso escritor e jornalista de mérito. Vale a pena ir até as últimas consequências por uma paixão fulminante? Existe algum artigo seu em que retratais o fato? Cruz e Sousa dizia: "O ser que é ser e que jamais vacila, nas guerras imortais, entra sem susto. Leva consigo esse brasão Augusto do grande amor e da nobre fé tranquila. Os abismos carnais da triste argila, ele os vence, sem ânsias e sem custo... Fica sereno, num sorriso justo, enquanto tudo ao seu redor vacila. Ondas interiores de grandeza, dão-lhe esta glória, em frente à natureza, esse esplendor, todo esse largo eflúvio. O ser que é ser, transforma tudo em flores e para ironizar as próprias dores, canta, por entre as águas do dilúvio." ...Então, o que dizes, mestre gigantesco, nascido da noite? Aguardo resposta!
João Carlos Ramos
jocarramos@gmail.com
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