Crepúsculo da Lei: Sobre crianças e lobos
CREPÚSCULO DA LEI – Ano V – CXVIII
Sobre crianças e lobos
A presente escrita se propõe a uma breve reflexão envolvendo os ataques contra estabelecimentos de ensino para crianças e adolescentes.
Por mero estilo, a primeira consideração a ser feita é sobre a manipulação dos afetos de amor e ódio, cuja prática encontra campos férteis no espaço de vida em que se planta o conhecimento e desenvolvimento da pessoa humana.
Sem embargo, conhecimento é exatamente co-nascimento, um “co-nascer”, um nascer junto para algo.
Neste percurso, tanto a odiosidade, quanto a amorosidade se conhecem em constante dialética por disposições de amor e ódio nas passagens da infância para adolescência, mediados nos signos e símbolos da linguagem utilizada.
Nesse contexto simbólico, ex-surge a figura do lobo das histórias infantis trazendo consigo os signos do medo, esse monstro que devora a paz infantil, que se constituirá no primeiro censor proibitivo-punitivo da configuração cognitiva das pessoas em desenvolvimento.
Trata-se de uma figura tão iconoclasta (da paz subjetiva) que, mesmo na fase adulta, insiste e persiste em povoar temores bem maiores, ao ponto de manter-se fiel aos propósitos do controle social nas razões fundantes do estado, conforme já explicou Thomas Hobbes ao nomear seu próprio lobo de Leviatã.
Corolário a Hobbes, já foi dito que o homem é o lobo do homem. Entretanto – e antes disso – a criança pode ser o lobo da criança e o adolescente também pode ser o lobo do adolescente, dependendo dos dispositivos ideológicos (que serão) utilizados na mencionada dialética do medo.
A palavra “lobo” vem do latim lupus, que significa sedento de sangue, e servia para designar guerreiros destemidos, aqueles que se batiam até a morte contra os inimigos.
Da mesma forma, a palavra “medo” vem igualmente do latim metus para designar a angústia em face de uma sensação de perigo.
Por conta dessa compreensão pode-se sair de um diagrama para um anagrama, ou seja, do medo do lobo para o lobo do medo, ou ainda, daquele que sente o temor para aquele que causa o temor.
Para tanto, basta o ajuste simbólico dos signos da linguagem (que serão) percebidos pelo consciente infantil e arquivados inconscientemente. A isto se instala um “gatilho” apto a deflagrar o dispositivo “lobo” nas situações de “medo”.
Para o devido êxito da experiência é necessário que, tanto o signo “medo” quanto o símbolo “lobo”, sejam alimentados com afetos do ódio, o gatilho.
Cabe ao ódio servir (se) de preparo energético idôneo a deflagrar as transformações medo-lobo. A lógica se baseia na proposição de proporcionalidade: o medo vai se alimentando do ódio até o ponto limite para vir à tona o lobo.
É nesse sentido que se deduz: quanto mais ódio, mais o medo se alimenta e mais lobos são deflagrados.
Assim, crianças e adolescentes precisam se alimentar. Estão em desenvolvimento. Eles têm fome de quê?
Com pequenas migalhas alimentícias de “fazer arminha” com as mãos, passando por lanches de machismo, racismo, intolerância, indo até os banquetes suntuosos de levá-los aos clubes de tiro, os lobos vão crescendo pelo medo e para o medo.
Daí em diante o que se vê é choro e sangue.
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