Da série “O nazismo chegou”: paródia em N.Gogol sobre o “reclamador federal”, ou, sobre a incompetência parlamentar, ou, sobre a crítica da razão cínica

CREPÚSCULO DA LEI – ANO VII – CCCXII
Parece a história do “Inspetor Geral” (1836, Nikolai Gogol), mas não é.
Aqui a história é outra, como também não deixa claro, mas fato é que a criatura já surgiu, reclamando.
Reclamava de tudo em sua aldeia.
De tanto reclamar, elegeu-se vereador dos reclames e a aldeia se deleitava com aquele edil reclamador municipal, vazio em soluções, mas soluções para os problemas eram desnecessárias até então, mesmo porque o vereador não as tinha.
Reclamar era preciso, dar soluções não.
O reclamador municipal não participava de debates. Não tinha argumentos. Preferia a retórica uníssona e monóloga, vazia, porém engraçada, bufante.
Continuou reclamando de tudo na aldeia e, festejado por aldeões mais delirantes, foi eleito deputado estadual para o parlamento da província.
A província, inicialmente, não entendeu bem a criatura, mas não importava. Importava o show divertido de reclamações sem sentido, sem dados e sem verdades que a criatura produzia. Sim, eram muito divertidas.
O reclamador estadual manteve sua pantomima de forma tão eficaz que (Pasme-se!) elegeu um irmão como alcaide da sua aldeia.
O reclamador estadual viu que aquilo era bom e não descansou. Continuou com suas reclamações sem sentido e sem soluções, as quais também não importavam. A província se deleitava com o bufão.
Não é que o reclamador estadual foi eleito para o senado do reino? Um feito extraordinário coroando o conjunto de reclamações sem sentido e sem soluções.
Agora era um reclamador federal. Oh, glória congressista feudal!
Novas reclamações federais haveriam de surgir. Todavia, algo incomodava o reclamador federal. Algo que o deixava em dificuldade em formular suas reclamações, já que o irmão era o próprio alcaide da sua aldeia, e sua Província era (mal) governada pela ala Nova do seu próprio partido.
O que fazer?
O reclamador federal não se intimidou. Juntou a trupe e fez teatro federal com “blitz” da guarda policial em estradas, procurou buracos federais em rodovias fora da província, foi aos mercados dos vilarejos do feudo procurar preços federais mais altos e, nas horas de folga, fazia ritos de ciclos dançantes federais com sua trupe.
Soluções? Nenhuma. Debate? Nenhum. O reclamador federal era mesmo, unicamente, especialista em reclamações.
Verdade? O reclamador federal se tornou uma grande inspiração para sua aldeia e sua província. Muitos o imitavam e até tentavam reclamar como ele, alguns chegaram a fazer uso de perucas no plenário da corte, mas a laboração de reclamações sem sentido e sem soluções como aquelas do reclamador federal, principalmente aquelas sem sentido e sem solução,, eram imbatíveis.
No final da história (?) o reclamador federal se especializou tanto nas reclamações sem sentido e sem solução que, escatologicamente, tornou-se imune a elas, ao ponto de, recebendo contra si toda e quaisquer reclamações por sua inutilidade, eram elas automaticamente consideradas “sem sentido e sem solução”.
Assim, o cotidiano das reclamações sem sentido e sem solução se constituiu em uma epifania catártica na aldeia e na província, e todos viveram (mais ou menos) felizes para sempre.
(*) As políticas tirânicas do presidente dos EUA contra minorias, principalmente imigrantes brasileiros, são nazistas. Reclamações contra o nazismo não são sem sentido e sem solução. Devem ser feitas, urgentemente, principalmente pelos reclamadores federais.
Domingos Sávio Calixto é advogado criminalista, e professor de Direito Penal
domingosavio88@yahoo.com.br
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