Cultura selvagem

Augusto Fidelis
A gente passa a semana inteira na maior labuta e, com frequência, anseia pela chegada do final de semana para ter um pouco de sossego. Mas não raras às vezes tudo passa tão depressa, que não dá tempo sequer de deitar na rede para aquele sono dos justos. No entanto, no último domingo, fui até a Praça do Santuário, onde me encontrei com muitas pessoas conhecidas. Numa das rodas, das quais eu participei, o assunto predominante era cultura. Uma senhora reclamava da falta de educação reinante, certa de que o ser humano ainda não deixou sua fase primitiva.
Ao ouvir tal observação, lembrei-me imediatamente de um livro que li quando eu ainda estava na faculdade, “Cultura: um conceito antropológico”, de Roque de Barros Laraia, publicado pela Jorge Zahar Editor - Rio de Janeiro, que já se encontra na sua 4ª edição. Na primeira parte da obra, “Da Natureza da Cultura ou da Natureza à Cultura”, embora o título não esteja na forma interrogativa, poderia ser uma boa pergunta, uma vez que o autor tenta averiguar de que forma o homem primitivo conseguiu adquirir cultura.
Há séculos esta pergunta ecoa em meio aos mais apaixonados debates e atormenta as mentes mais brilhantes. Laraia inicia sua tese lembrando Confúcio, pensador chinês que viveu quatro séculos antes de Cristo, partindo da sua afirmação de que “A natureza dos homens é a mesma, sãos seus hábitos que os mantém separados”.
Laraia caminha, na sua obra, enumerando conceitos emitidos por várias personalidades ao longo da história, sobre os costumes de povos diferentes, como os lícios, descritos por Heródoto (484 - 424 a. C.); Marco Polo, sobre suas viagens pela Ásia (1271 - 1296); Padre José de Anchieta (1534 - 1597) sobre os índios brasileiros, dentre outros. No entanto, a diferença de comportamento entre os homens não pode, segundo o autor, ser explicada através das diversidades somatológicas ou mesclógicas. Até agora, nem o determinismo geográfico nem o biológico foram capazes de resolver a questão.
O antropólogo norte-americano contemporâneo, Leslie White, considerou que a passagem do estado animal para o humano ocorreu quando o cérebro do homem foi capaz de gerar símbolos. Também nesse caso, a pergunta não se cala: quando e como isso ocorreu? Vale lembrar a afirmação de Ruth Benedict no seu livro “O Crisântemo e a Espada”: “A cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo”.
A obra de Roque de Barros Laraia é muito instigante, com um texto de boa leitura e de fácil compreensão. Porém, mesmo com toda a literatura produzida sobre o tema, não é possível penetrar no âmago das pessoas e saber como elas enxergam o mundo e o que se passa ao redor. O ser humano evoluiu muito tecnologicamente, mas as relações interpessoais estão cada vez mais difíceis. Acredito que, o que a senhora disse lá na praça, tem razão de ser: o lado selvagem de homens e mulheres está cada vez mais evidente. Uma lástima!
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