‘Deixar o campo livre é convidar os candidatos para degradação’; diz especialista sobre debate presidencial
Confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro priorizou acusações em vez de propostas e prejudicou o direito dos eleitores à informação

O primeiro debate presidencial do segundo turno das eleições de 2026, realizado pela TV Bandeirantes na noite de domingo, 18, entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), foi marcado por ataques pessoais, acusações e questionamentos sobre familiares e trajetórias políticas. Para o advogado especialista em direito público Jarbas Lacerda, o confronto deixou a desejar na apresentação de propostas concretas e comprometeu a oportunidade de os eleitores compararem os projetos dos candidatos antes de decidir o voto.
Espaço amostral
Lacerda considera os debates instrumentos fundamentais da democracia, mas avalia que o encontro desperdiçou a oportunidade de aprofundar questões essenciais para a população. Na visão do especialista, a disputa eleitoral não pode se sobrepor à responsabilidade de apresentar projetos viáveis e esclarecer temas de interesse público.
— O debate é um instrumento precioso para que os eleitores possam avaliar as propostas e os comportamentos dos candidatos. Sob a expectativa de análise de propostas e medidas em benefício dos eleitores e do país, o debate certamente não atingiu esse objetivo, pois a maior parte do tempo foi utilizada para ataques pessoais, propagação de inverdades — afirma.
Durante o encontro, Lula e Flávio trocaram acusações relacionadas a suspeitas de corrupção, investigações envolvendo familiares e questões políticas. Embora temas como segurança pública, saúde e economia também tenham sido abordados, as provocações ocuparam espaço que poderia ter sido dedicado à discussão de soluções para o Brasil.
Ataques X Propostas
Para Lacerda, um debate efetivo exige propostas concretas, explicações sobre a origem dos recursos e detalhes sobre como as medidas anunciadas seriam executadas.
— Esperava-se que pudessem ser apresentadas propostas concretas, com o candidato dizendo o que pretende fazer para melhoria da vida da população nos assuntos mais importantes, de onde vem o recurso para fazer e como a proposta poderia ser implantada — destaca.
O especialista defende mudanças nas regras dos debates para evitar que ataques pessoais dominem a discussão. Segundo ele, a ausência de limites favorece confrontos improdutivos e dificulta a comparação entre os projetos políticos.
— O formato dos debates pode, sim, ser aprimorado, com a delimitação de apresentação de ideias e fundamentos, com exclusão da possibilidade de ataques pessoais, por exemplo. Deixar o campo livre é convidar os candidatos para uma degradação que sempre acontece nos debates — afirma.
Quando o confronto se transforma em uma sequência de acusações, o eleitor perde espaço para cobrar respostas sobre emprego, renda, saúde, educação e segurança pública. Assim, o debate deixa de cumprir plenamente sua função de informar a população.
Distorção
A disseminação de informações falsas é outra preocupação de Jarbas Lacerda. Para ele, declarações enganosas podem influenciar a decisão dos eleitores, principalmente quando não são verificadas posteriormente.
— As mentiras e as desinformações trazidas no debate certamente influenciam negativamente no processo eleitoral. Os eleitores são confundidos e alguns, por não terem o cuidado de checar a informação, acabam decidindo o candidato segundo as mentiras que foram apresentadas nos debates — alerta.
O advogado avalia que a busca por votos pode se sobrepor ao compromisso com a verdade.
— Parece-me também um desespero pelo voto, pois o candidato sabe que está mentindo, faz a mentira no intuito de captar o voto a qualquer custo, mesmo que enganando o eleitor — declara.
Objetividade
A falta de respostas objetivas também prejudica, na avaliação do especialista, a qualidade do debate democrático. Quando um candidato evita responder a uma pergunta direta, o eleitor perde a oportunidade de compreender seu posicionamento e avaliar seu preparo.
— A ausência de respostas objetivas — e de propostas — tem um impacto seríssimo e compromete, sim, o debate democrático. O primeiro efeito é a descrença do eleitor, que passa a não acreditar nos políticos, haja vista que seus anseios por propostas não são considerados no debate — afirma.
Para Lacerda, esquivar-se de questionamentos pode demonstrar despreparo ou receio de abordar temas delicados. O eleitor, segundo ele, tem direito a esclarecimentos sobre questões de interesse público.
— O candidato a quem é proposta pergunta objetiva sobre um fato e não a responde, quando evita tratar o assunto, negligencia o direito do eleitor em ter a informação sobre o tema — avalia. O advogado acrescenta que a postura dos candidatos e a consistência de suas respostas devem pesar na decisão de voto.
— O eleitor consciente, ao perceber essas manobras evasivas, insuficiência de respostas, certamente vai considerar essa postura na decisão de seu voto — conclui.
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