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Editorial

Duas lutas, um mesmo alerta 

Por Bruno
Duas lutas, um mesmo alerta 

Ontem não foi apenas mais um 18 de maio. Foi um daqueles dias em que a sociedade é obrigada a olhar para temas que muitas vezes prefere evitar. Dois movimentos diferentes, duas dores diferentes, mas um ponto em comum: a defesa da dignidade humana.

Enquanto Belo Horizonte recebia mais uma edição do desfile da luta antimanicomial, Divinópolis voltava às ruas com milhares de pessoas na caminhada “Todos Contra a Pedofilia”. E talvez exista algo muito simbólico nisso tudo acontecer no mesmo dia. Porque as duas causas falam, no fundo, sobre proteção. Sobre acolhimento. Sobre enxergar pessoas que durante muito tempo foram invisibilizadas, silenciadas ou tratadas apenas com preconceito.

A luta antimanicomial existe para lembrar que sofrimento mental não pode ser tratado com exclusão. Que ninguém deve ser isolado da sociedade por estar adoecido. Que saúde mental exige cuidado, estrutura, acompanhamento e humanidade. Durante décadas, o Brasil conviveu com uma lógica cruel de afastamento, abandono e violência institucionalizada dentro de manicômios. 

Minas Gerais conhece bem essa história. O Hospital Colônia de Barbacena se tornou símbolo nacional desse horror. Um lugar onde milhares morreram esquecidos. E talvez seja justamente por isso que movimentos como o de ontem continuem tão importantes: para lembrar que retrocessos acontecem quando a sociedade para de discutir determinados assuntos.

Ao mesmo tempo, a caminhada contra a violência sexual infantil trouxe outro alerta urgente. Um dos mais difíceis. Um dos mais dolorosos.

Os números envolvendo abuso de crianças e adolescentes continuam assustadores. E o mais cruel é que, muitas vezes, o perigo está perto. Dentro de casa. No círculo de confiança. No silêncio imposto pelo medo.

Por isso, ver milhares de pessoas ocupando as ruas em Divinópolis não representa apenas uma mobilização simbólica. Representa um recado coletivo de que o assunto não pode mais ser escondido, relativizado ou tratado como tabu.

E talvez exista algo ainda mais importante nessas duas lutas: ambas exigem escuta. Escutar quem sofre. Escutar quem pede ajuda. Escutar sinais que muitas vezes passam despercebidos. Crianças mudam comportamentos. Pessoas em sofrimento mental também. O problema é que a sociedade costuma perceber tarde demais — ou pior: prefere fingir que não viu.

As campanhas existem justamente para romper esse silêncio. Em tempos de tanta superficialidade, debates rápidos e julgamentos instantâneos nas redes sociais, dias como o de ontem lembram que existem problemas profundos demais para serem tratados com descaso. Saúde mental não é piada. Violência sexual infantil não é assunto distante.

São temas que atravessam famílias, escolas, comunidades e cidades inteiras. E talvez o maior erro seja acreditar que essas lutas dizem respeito apenas aos outros. Porque qualquer sociedade que abandona pessoas em sofrimento ou falha em proteger suas crianças está, aos poucos, adoecendo junto com elas.

Ontem foi dia de caminhada, desfile, manifestações e mobilização. Mas o verdadeiro desafio começa hoje: transformar conscientização em atenção permanente. Porque algumas causas não podem existir apenas em datas específicas.

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