Editorial: Quanto vale?
O mundo praticamente parou na última semana para acompanhar o desenrolar da história do submarino Titan, que levava cinco bilionários em uma expedição aos destroços do Titanic. No dia 18 de junho, o subaquático desapareceu nas profundezas do Oceano Atlântico Norte. A embarcação perdeu contato com a base após 1h45 minutos, quando, ao que tudo indica, já estava próximo do que resta do lendário navio. Partes do submarino Titan foram encontradas no último dia 22, a cerca de 500 metros da proa do naufrágio. Declarações feitas pela Guarda Costeira, revelam que os tripulantes tiveram morte instantânea. O que mais chama a atenção é como o Titan e o Titanic estão ligados por um único ponto: a ganância. O Titanic foi um dos maiores e mais luxuosos navios de passageiros do seu tempo e naufragou quatro dias após sua viagem inaugural. O navio era dividido em primeira, segunda e terceira classe. A diária na primeira classe custava na época U$ 150 - o que seria hoje aproximadamente U$ 4.500. Historiadores apontam que das 2.200 pessoas a bordo do Titanic, 1.500 morreram, sendo a maioria da terceira classe (536 no total) e a tripulação (685).
Dados importantes, como o de que Joseph Bruce Ismay pediu ao capitão Edward Smith que o Titanic chegasse um dia ao seu destino para ganhar as manchetes dos jornais na época, e de que normas de segurança – como a colocação de mais botes no navio – foram ignoradas ligam a história no navio com a do submarino implodido na semana passada. Fatos como esses ganham sim, destaque, e junto vem a perplexidade, pois logo em seguida vem a pergunta: quanto vale uma vida? Quanto vale a ostentação? Cinco bilionários entraram em um submarino e ignoraram os sinais de alerta sobre a segurança que eram feitos desde 2018. Pagaram mais de R$ 1 milhão em cada passagem, para ver de perto os destroços do Titanic, e não voltaram. O fato chama a humanidade mais uma vez para rever os seus valores. Vale tudo por dinheiro? Ao mesmo tempo em que o submarino seguia desaparecido, um navio superlotado, com mais de 700 migrantes – a maioria do Paquistão, Síria e Egito, e incluindo cerca de 100 crianças – naufragava na Grécia e não recebeu qualquer tipo de ajuda da Guarda Costeira do país, que agora é acusada de negligência. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) centenas de pessoas seguem desaparecidas.
A discrepância, a ganância, o desejo de ostentação e as “coincidências” unem esses casos. A maioria dos mortos no Titanic era da tripulação e da terceira classe. O mundo se voltou para a implosão do submarino que levava cinco bilionários, e ignorou completamente o navio com os migrantes. A necessidade cada vez maior de mostrar que tem dinheiro e poder, e aparecer, está dominando o mundo hoje, e dissolvendo os valores humanos. Sonhos que viraram pesadelos, pelo desejo de se mostrar, de estar em evidência, em paralelo com fatos tão tristes como o navio que afundou na Grécia, levam sim ao questionamento: até onde a ganância levará a humanidade? Quanto vale uma vida? Quanto vale a ostentação?
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