Perdeu a noção

Nas palavras de Guimarães Rosa, “o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. É fato: em muitas situações, o que a vida quer da gente é coragem. Coragem para não se calar, agir e reagir, para não ser conivente com a impunidade, para cobrar direitos, lutar por melhorias, se impor e tantas outras batalhas diárias. Antes de bravura, porém, é primordial ter noção. Com o boom das redes sociais, o povo encontrou na internet o seu ponto de coragem e, com isso, tem abandonado o bom senso. Diversas situações nas plataformas digitais chamam a atenção sobre a necessidade, cada vez mais gritante, de que as pessoas precisam aparecer, ser vistas, notadas. A urgência de chamar atenção às vezes é tanta que o discernimento é deixado de lado. Os divinopolitanos assistiram na última semana, o caso de uma blogueira, que chegou a se filmar enquanto era levada para a Unidade de Pronto Atendimento Padre Roberto (UPA Padre Roberto), após sofrer um acidente de carro. Vergonhoso. Talvez este seria o termo correto para definir a situação.
Mas, como o que está na moda agora é apenas “ter coragem”, porém sem noção, a polêmica dessa semana foi a de um dentista da cidade, que estava com sua esposa no Complexo de Saúde São João de Deus (CSSJD), e partiu para as redes sociais para reclamar, após a realização do exame ter atrasado. O que mereceu um discurso nas redes sociais, como se não fosse natural no Brasil, o atraso em consultas e exames. O retardo de uma ultrassonografia. Revoltado pela demora no atendimento, usou suas redes sociais e “desabafou”. Marcou políticos da cidade, fez questão de citar que o secretário municipal de Saúde, Alan Rodrigo era seu novo seguidor no Instagram. E, em seu discurso digno de Oscar, o dentista disse que não queria prejudicar, mas melhorar o atendimento do hospital para a população, e que ele estava cobrando e expondo. Ao final da “cobrança”, a única conclusão que se tem é: Vivemos em uma sociedade rasa, que quer apenas o espetáculo, ser aplaudida, vista, notada. É como dizem por aí: quer apenas lacrar.
A grande questão é: onde isso está nos levando? Quais os riscos que comportamentos como este trazem para o coletivo? Sim! É impossível não ver este tipo de conteúdo – que é mais no meio de milhares que surgem nas redes sociais – e não questionar: para quê? Qual a necessidade? Será que a cada dia mais e mais pessoas estão desenvolvendo a Síndrome do Peter Pan? O fato é que para se viver em sociedade é preciso ter coragem sim, mas é extremamente necessário ter noção. E, antes, acima de tudo, é primordial que a população comece a ter maturidade para o uso das redes sociais, pois o coletivo está pagando – e caro – por aqueles que a usam para fazer “ o mal” disfarçado de “população". Colocar em xeque a credibilidade de uma unidade de saúde tão respeitada, pelo simples fato de aparecer. Dessa boa intenção aí, absolutamente ninguém precisa.
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