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Marina Diva de Oliveira

Esperança ou fantasia?

Por Jornal Agora· 4 min de leitura
Esperança ou fantasia?

Marina Diva

Já sentiu que tem dias em que a vida parece exigir de nós uma fé e uma força inabalável. Queremos acreditar que tudo vai melhorar, que a dor vai passar, que as relações serão restauradas e que o futuro, enfim, será gentil.

Mas existe uma diferença importante entre esperança e fantasia. E compreender essa diferença pode ser um dos maiores gestos de cuidado com a nossa saúde mental.

Olhe bem, a fantasia nos protege da realidade. Ela cria atalhos para aliviar a angústia. Para não ver o óbvio. Nos faz acreditar que alguém mudará sem precisar se responsabilizar, que um emprego resolverá todos os nossos vazios, que um diagnóstico explicará toda a nossa história ou que um dia acordaremos diferentes, sem que nada, de fato, precise ser transformado. A fantasia promete uma solução mágica para conflitos que, inevitavelmente, exigem travessia.

Há algo ainda mais sutil: a fantasia costuma se vestir de esperança. Ela usa a linguagem dos sonhos, da confiança e do otimismo, mas se diferencia por um detalhe essencial: ela dispensa a realidade.

É quando você acredita que pode ter a vida de outra pessoa, sem considerar a sua própria história. Quando deseja aquele corpo, ignorando seu biotipo, sua rotina, sua saúde e até o que faz sentido para você. Quando sonha com um cargo, mas não se pergunta se está disposto a sustentar as escolhas, as renúncias e as responsabilidades que ele exige. Quando compara os bastidores da sua vida com a vitrine da vida do outro.

Percebe como a fantasia nos seduz?

Ela nos faz acreditar que basta desejar intensamente para que a realidade se reorganize.

A esperança faz diferente. Ela olha para quem somos, para o lugar de onde partimos e pergunta: o que é possível construir a partir daqui.

Freud dizia que amadurecer psiquicamente implica em aprender que a vida não acontece apesar dos limites, mas através deles. Nem tudo nos convém! O limite apresenta bordas necessárias para nossa identidade. Ter saúde emocional não é viver sem sofrimento, mas conservar a capacidade de criar, brincar e existir de maneira autêntica, mesmo quando a realidade não corresponde aos nossos desejos. É justamente aí que nasce a esperança. Ela não nega a dor. Ela não promete garantias. Ela não elimina o medo.

A esperança apenas impede que o medo decida por nós.

Na prática clínica e na vida, percebo quantas pessoas confundem esperança com espera. Permanecem anos aguardando que o outro mude, que o outro perdoe, que a empresa reconheça seu valor, que a família compreenda suas escolhas ou que a felicidade apareça espontaneamente. Enquanto isso, a própria vida permanece em suspenso.

A esperança não suspende a vida. Ela movimenta.

Tenho acreditado que estejamos vivendo uma espécie de epidemia de passividade. Não uma passividade preguiçosa, mas uma passividade emocional. Esperamos que a motivação apareça para então agir. Esperamos o momento perfeito para começar. Esperamos que alguém nos enxergue antes de nos reconhecermos. Esperamos que um curso, um livro, uma promoção, um novo relacionamento ou até a inteligência artificial transformem aquilo que, no fundo, depende também da nossa decisão de sustentar a mudança. Esperamos!

Vivemos fascinados pela lógica da mágica. Emagrecer sem mudar os hábitos. Queremos o resultado sem o processo. O alívio sem a elaboração. O remedinho que resolve. A cura sem o tratamento. A paz sem as conversas difíceis. O recomeço sem o luto.

Mas a esperança não pode ser um delírio emocional.

Esperança é compromisso. É continuar caminhando quando a emoção já não sustenta os primeiros passos. É permanecer quando o entusiasmo passa e resta apenas a escolha cotidiana de construir uma vida possível. Nos pequenos passos. Nas escolhas simples. Naquilo que ninguém vê.

E, se a gente trocasse a pergunta: quando a minha vida vai mudar? para: quem eu escolho ser enquanto a vida acontece?

Acredito muito que a mudança que tanto desejamos é exatamente aquela que ainda não escolhemos manter. Queremos um corpo diferente, mas não um novo estilo de vida. Queremos relações mais saudáveis, mas não a coragem dos limites. Queremos paz, mas resistimos às renúncias que ela exige. Queremos uma carreira diferente, mas permanecemos os mesmos diante das decisões. Não é?

Gosto de pensar que o céu é para quem aceita o vento. E que é preciso deixar morrer algumas certezas absolutas, desaprender, morrer simbolicamente muitas vezes para permitir que novas versões de nós mesmos possam nascer.

Não porque a vida nos destrua, mas porque ela nos ensina, nos apresenta convites.

Cada luto elaborado, cada ilusão abandonada, cada medo atravessado abre espaço para uma vida mais verdadeira, mais autoral, mais sua!

Não se iluda, esperança não é acreditar que tudo dará certo (morro de preguiça dessa positividade tóxica rsrs). É decidir que, aconteça o que acontecer, continuaremos disponíveis para construir sentido. Para continuar respirando, para continuar sendo presença na própria vida. 

E você? O que, na sua vida, ainda está protegido pela fantasia, quando, na verdade, pede apenas para ser visto?

Já pensou que a esperança começa exatamente aí: no instante em que deixamos de desejar outra vida e escolhemos habitar, com coragem, a que já nos foi dada.

Respirar também é isso: aceitar que toda transformação começa quando deixamos de esperar milagres e escolhemos participar da própria história que já é, em sim, um milagre.

A esperança não é esperar que a vida aconteça. É tornar-se alguém capaz de acontecer junto com ela! Vamos?


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