O que NÃO é saúde mental

Marina Diva
Há uma certa pressa quando se fala em saúde mental. Pressa por definir, classificar, medir, oferecer respostas rápidas para dores que são antigas. Talvez por isso seja tão necessário, de vez em quando, fazer o caminho inverso: dizer, com cuidado, respeito e responsabilidade, o que saúde mental não é.
Saúde mental não é estar bem o tempo todo. Não é viver em equilíbrio permanente, serenidade contínua e produtividade estável. Isso é fantasia (uma fantasia violenta. Ninguém consegue estar bem o tempo todo). A vida pulsa em ritmos desiguais, alterna dias claros e outros nublados. A psicanálise nunca prometeu felicidade constante; ela nos convida, antes, à possibilidade de sustentar a própria existência, com suas faltas, excessos e contradições. De vez em quando se permitir ouvir sua própria voz. Desligar o celular. Andar apreciando outros caminhos.
Saúde mental não é ausência de sofrimento. Sofrer não é sinônimo de adoecer. Muitas vezes, é sinal de que algo em nós ainda está vivo, reagindo, pedindo sentido. Há dores que não precisam ser eliminadas, mas escutadas. Algumas funcionam como sinos: doem porque chamam. Quando transformamos qualquer tristeza em patologia, perdemos a chance de compreender o que aquela dor tenta dizer. De vez em quando nomear o incômodo. Se perguntar: por que eu sempre retorno a esse sofrimento? Sair do problema é uma ótima forma de olhar para ele.
Há também uma confusão silenciosa entre falar de saúde mental e falar apenas de adoecimento mental. Quando o debate se restringe a diagnósticos, sintomas e rótulos, passamos a olhar o humano apenas pelo que falha. Saúde mental vira sinônimo de doença controlada, e não de vida possível. O foco exclusivo no adoecer nos ensina a identificar o problema, mas não a sustentar a existência. E, nesse deslocamento, deixamos de perguntar não só o que está errado, mas o que ainda insiste em viver. De vez em quando fazer uma “lista” dos seus inegociáveis, daquilo que você gosta de fazer, das pessoas (ou da pessoa) que pode apoiar quando você precisar.
Saúde mental não é performance emocional. Não é dar conta de tudo, nem apresentar uma versão emocionalmente correta de si mesmo. Não é sorrir nas reuniões, postar frases inspiradoras e seguir produzindo como se o corpo e a alma fossem sistemas independentes. A lógica da performance invadiu o campo do cuidado e criou um ideal inalcançável: pessoas super resilientes, reguladas, sempre prontas. Só que não! O humano real tem o superpoder da incompletude. Só porque falta é que nos colocamos em movimento. Ele tropeça, cansa, se perde. De vez em quando fazer algo sem necessidade de performar, sem postar.
Também não é um checklist de hábitos saudáveis. Não existem 10 passos para ser feliz. Não existem protocolos para qualidade de vida. Meditar, fazer atividade física, beber água, dormir bem. Tudo isso pode ajudar, e muito. Mas saúde mental não se resume a uma lista de comportamentos. Há quem faça tudo “certo” e ainda assim esteja profundamente desconectado de si. O cuidado não é protocolo; é encontro. De vez em quando se perguntar: por que eu faço o que eu faço?
Saúde mental não é responsabilidade individual isolada. Quando dizemos que alguém adoeceu porque não soube lidar com as próprias emoções, apagamos contextos, vínculos, condições de trabalho, desigualdades e violências silenciosas. São muitas camadas (muitas mesmo). Nos constituímos no laço. Onde o laço adoece, o sujeito sofre. De vez em quando ser mais gentil com você. Nem tudo é sobre o hoje.
Não é silenciar conflitos. Não é evitar conversas difíceis, nem sustentar relações que ferem em nome de uma falsa harmonia. Muitas vezes, o sintoma aparece exatamente onde o conflito foi calado. Aquilo que não ganha palavra, ganha corpo. E o corpo cobra. De vez em quando lembrar de ter conversas difíceis para não ter uma vida difícil.
Saúde mental não é resposta pronta. Não é frase motivacional colada sobre um abismo. Não é acelerar processos que pedem tempo. Cuidar da saúde mental é, muitas vezes, sustentar perguntas sem resposta, respeitar o tempo do outro, admitir que não sabemos. De vez em quando lembrar que nem para tudo tem jeito e que toda vez que choveu, parou. Nem tudo precisa da nossa atenção.
Saúde mental não é um estado a ser alcançado. É um caminho que se faz em relação: com o outro, com o mundo, consigo mesmo. E como todo caminho vivo, ele não é reto, nem previsível. De vez em quando se permitir viver algo pela primeira vez.
Talvez saúde mental seja algo mais simples e mais exigente. Um espaço interno possível onde caibam perguntas. Um lugar onde possamos existir sem precisar se justificar o tempo todo. A possibilidade de nomear o que dói, de construir sentidos possíveis, de viver com menos vergonha da própria fragilidade.
Cuidar da saúde mental, no fim das contas, é permitir que a vida não precise caber em moldes e nem em manuais.
Talvez seja disso que estamos falando quando falamos, de verdade, em saúde mental: da coragem de existir sem garantias. De poder parar, pausar, sentir, se demorar, duvidar, sustentar nossas estranhezas, recomeçar. De não precisar estar inteiro o tempo todo para continuar sendo humano. Saúde mental é quando a vida, mesmo incompleta e imperfeita, ainda encontra um jeito de passar por nós e nós, um jeito de permanecer.
Respira, é Humano!
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