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Marina Diva de Oliveira

Em algum momento, a gente precisa se convencer de que viu o bastante

Por Bruno
Em algum momento, a gente precisa se convencer de que viu o bastante

Escutei, na semana passada, que insistir nem sempre é uma virtude.

A frase me encontrou antes mesmo de eu encontrá-la. Há palavras que não acabam quando a conversa termina. Elas permanecem. Sentam-se ao nosso lado e esperam, pacientemente, o tempo em que estaremos prontos para entendê-las.

Talvez seja essa.

A gente insiste em relações que já não nos acolhem. Em ambientes que nos fazem duvidar de quem somos. Em conversas que nunca acontecem. Em promessas que nunca chegam. Permanecemos porque acreditamos que, se esperarmos mais um pouco, o outro mudará, a situação melhorará ou, finalmente, seremos vistos.

Mas existe um instante quase imperceptível em que a esperança muda de roupa. Continua parecendo esperança, mas já virou adiamento.

E o adiamento cobra um preço.

A saúde mental nem sempre se rompe por grandes tragédias. Às vezes, ela vai se desgastando nas pequenas permanências. Naquilo que continuamos sustentando muito depois de já não nos sustentar.

Vivemos um tempo que admira quem suporta tudo. Chamamos isso de força. Pouco perguntamos quanto de si foi deixado pelo caminho para que essa força existisse.

Nas organizações, nos consultórios e na vida, encontro pessoas profundamente cansadas. Não apenas pelo excesso de trabalho, mas pelo excesso de tentativas, de esforço. Tentativas de convencer quem não quer ouvir. De corresponder ao que nunca seria suficiente. De salvar relações sustentadas por uma única pessoa.

Isso também é uma forma de exaustão. Nosso cérebro gosta da previsibilidade. Prefere imaginar que "desta vez será diferente" a aceitar o luto daquilo que simplesmente não será. Escolher é uma tarefa tão sofisticada porque toda escolha também é uma despedida.

E há uma pergunta que volta para mim com frequência: quanto da sua vida tem sido investido para manter vivo algo que já terminou?

Acredito muito que a paz começa exatamente quando paramos de procurar uma última prova. Não porque faltaram evidências e, sim, porque já existem evidências suficientes.

Acredite, ver o bastante não é deixar de amar. É deixar de negociar a própria existência. É, também, compreender que algumas respostas chegam pelo silêncio, pela repetição dos comportamentos, pela ausência de mudança. Nem toda verdade vem em forma de explicação. Algumas apenas insistem em acontecer, até que a gente consiga enxergá-las.

Costumo dizer que coragem nem sempre é permanecer.

Às vezes, coragem é ir embora sem transformar a culpa em bagagem.

É entender que partir de alguns lugares também é uma forma de permanecer inteiro.

Sherlock Holmes escreveu que "o mundo está cheio de coisas óbvias que ninguém jamais observa". Sei que acontece o mesmo conosco. As evidências quase sempre estiveram ali. O mais difícil nunca foi enxergar. Foi aceitar.

Proteger a saúde mental, muitas vezes, é uma decisão silenciosa. É deixar de procurar novas explicações quando a vida já respondeu de todas as formas que sabia. Convencer-se de que viu o bastante não é desistir da esperança.

É desistir de se perder.

Percebo que essa seja uma das maiores urgências do nosso tempo. Vivemos cercados de pessoas emocionalmente exaustas por insistirem além do saudável, confundindo amor com resistência, lealdade com permanência, coragem com sacrifício.

Mas existe um outro tipo de coragem:

Aquela que, sem fazer barulho, recolhe o que ainda resta de si e decide voltar para casa. 

Saúde Mental também é isso: saber reconhecer o caminho de volta para si mesmo.

Respira, é humano!

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