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Marina Diva de Oliveira

A vida é feita, também, do que não aconteceu

Por Bruno
A vida é feita, também, do que não aconteceu

Marina Diva

Tenho vivido umas experiências muito gratificantes e outro dia, enquanto organizava algumas fotos encontrei uma coleção de coisas que não aconteceram.

A promoção que não veio.

A viagem que ficou para depois.

O emprego que não deu certo.

O projeto que morreu no papel.

A ligação que nunca aconteceu.

A coragem que faltou.

A resposta que não veio.

Percebi que carregamos uma estranha tendência de contar nossa história apenas pelos fatos concretos, pelos acontecimentos que conseguimos listar em um currículo, em um álbum de fotografias ou nas lembranças compartilhadas à mesa. Mas a verdade é que somos feitos também pelas ausências.

Há perdas que não possuem ritual de despedida. Lutos que não recebem flores. Despedidas que acontecem sem que ninguém perceba.

Chamamos isso, muitas vezes, de perdas ambíguas. São experiências que não deixam marcas visíveis, mas transformam profundamente quem somos. Não sofremos apenas pelo que perdemos. Sofremos, muitas vezes, pelo que nunca chegou a existir.

E talvez seja justamente por isso que algumas dores sejam tão difíceis de explicar.

Como justificar a tristeza por uma vida que imaginamos e não vivemos?

Por um caminho que sonhamos percorrer e precisou ser abandonado?

Por uma versão de nós mesmos que ficou pelo caminho?

Há um cansaço silencioso em carregar expectativas interrompidas. Um peso que não aparece nos exames, mas que mora nos pensamentos repetitivos, na comparação constante e naquela sensação de que a vida aconteceu para os outros, menos para nós.

Mas existe algo importante que aprendemos quando olhamos com mais gentileza para aquilo que não aconteceu: a vida não é uma linha reta entre desejo e realização.

Entre uma coisa e outra existe um território chamado realidade. E é nele que a maturidade floresce.

Nem tudo o que desejamos seria, de fato, bom para nós.

Nem tudo o que perdemos era destino.

Nem toda porta fechada foi um castigo. Algumas foram proteção. Outras foram redirecionamento.

Nem para tudo tem jeito.

E algumas apenas fizeram parte da condição humana de não controlar tudo.

Já falamos por aqui que vivemos em uma época que valoriza respostas rápidas, metas alcançadas e histórias de sucesso. Você já percebeu daí, não é? 

Pouco se fala sobre os desvios, o não estar pronto, os fracassos, os planos interrompidos e os recomeços. No entanto, é justamente nesses lugares que a vida costuma realizar seu trabalho mais profundo.

A pessoa que somos hoje não nasceu apenas das conquistas. Nasceu também das renúncias.

Das esperas. Das decepções.

Dos "não". Dos atrasos.

Dos silêncios. Dos caminhos que precisaram terminar para que outros pudessem começar.

Ao olhar para trás, algumas das maiores dores da nossa trajetória revelem-se também como grandes professoras. Todo caminho ensina sobre vida. Não porque foram boas, não porque queríamos vivê-las. Mas porque, uma vez vividas, nos transformaram.

A vida é feita do que aconteceu. Mas também daquilo que não aconteceu.

Dos encontros que perdemos.

Das oportunidades que escaparam.

Dos sonhos que mudaram de forma.

E posso te falar mais, a vida é feita da capacidade de seguir construindo sentido mesmo quando a realidade não corresponde ao roteiro que escrevemos.

Amadurecer também é sobre fazer as pazes não apenas com a história que tivemos, mas também com a história que imaginamos ter. E compreender que, mesmo nas páginas que ficaram em branco, a vida continuou escrevendo quem somos.

Porque nem toda ausência é vazio. Algumas são caminhos que a vida escolheu não percorrer conosco.

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