Não é porque eu consigo que eu devo

Marina Diva
Outro dia me peguei respondendo uma mensagem enquanto terminava um relatório, ouvia um áudio, organizava a agenda da semana e pensava no que faria no dia seguinte. Tudo ao mesmo tempo. Tudo aparentemente sob controle.
A cena parece banal. E talvez seja. Afinal, fomos treinados para admirar quem dá conta. Quem produz. Quem resolve. Quem aguenta. Quem faz muito!
Mas uma pergunta me atravessou: não é porque eu consigo que eu devo.
Vivemos em uma época curiosa. Durante muito tempo, o sofrimento humano esteve associado à repressão. Havia regras, limites, proibições. Hoje, o cenário mudou. O filósofo Byung-Chul Han chama nosso tempo de "sociedade do desempenho". Não somos mais pressionados apenas por ordens externas. Tornamo-nos gestores de nós mesmos.
A voz que antes dizia "você não pode" foi substituída por outra, aparentemente mais gentil: "você consegue". “Tá pago”. “Vai lá e faz”.
E justamente aí mora uma armadilha.
Porque o "você consegue" pode se transformar rapidamente em "você deve". Deve produzir mais. Deve estudar mais. Deve aproveitar mais. Deve empreender mais. Deve estar disponível mais e mais e mais.
Se antes o sujeito era explorado por alguém, agora muitas vezes ele se explora sozinho.
A psicanálise tem algo importante a nos ensinar sobre isso. Nem todo desejo é, de fato, um desejo. Muitas vezes, aquilo que acreditamos querer nasce da expectativa do outro, das comparações, dos modelos que consumimos diariamente.
Queremos ou apenas aprendemos que deveríamos querer?
A diferença parece pequena, mas muda tudo.
Quando deixamos de escutar nossos limites, o corpo costuma assumir a tarefa de falar, o corpo sempre fala. Onde seu corpo fala? Quando surge o cansaço constante, a irritabilidade, a insônia, as dores nos ombros? A sensação de vazio mesmo diante das conquistas? O sentimento de estar sempre correndo atrás de alguma coisa que nunca chega? Uma sensação de insuficiência?
Não é raro encontrar pessoas exaustas por uma vida que, teoricamente, deu certo. E, olha, tenho escutado muito sobre isso. Muito mesmo.
Bauman, ao falar da modernidade líquida, descreve um mundo marcado pela velocidade e pela fragilidade dos vínculos. Tudo muda rapidamente. As relações, os empregos, os projetos e até as identidades. Nesse contexto, permanecer parece menos valorizado do que acelerar.
Mas há um preço.
Quando estamos ocupados demais para sentir, também estamos ocupados demais para viver. E existe uma diferença enorme entre preencher o tempo e habitar a própria vida.
Talvez uma das formas mais sofisticadas de sofrimento contemporâneo seja justamente esta: perder a capacidade de discernir entre potência e obrigação.
Eu posso responder e-mails à noite.
Eu consigo trabalhar no fim de semana.
Eu sou capaz de assumir mais um projeto.
Mas devo?
A maturidade emocional não está apenas em ampliar capacidades. Está também em reconhecer fronteiras. Quais os meus limites? O que eu realmente desejo?
Quero te contar que:
Nem toda oportunidade precisa ser aceita.
Nem toda demanda merece resposta imediata.
Nem toda capacidade precisa ser utilizada no limite.
Há uma sabedoria pouco valorizada em dizer não.
Não por preguiça.
Não por incompetência.
Mas por consciência.
Uma vida saudável não é medida apenas pelo que conseguimos carregar. É medida também pelo que escolhemos deixar no chão. Nossas escolhas mudam nosso destino!
Quero te contar, ainda, que cuidar da saúde mental, atualmente, é reaprender uma pergunta simples antes de assumir mais uma tarefa, mais uma responsabilidade ou mais uma exigência:
Isso faz sentido para mim?
No fim das contas, nem tudo o que somos capazes de fazer merece ocupar espaço na nossa vida.
Acredito muito que a verdadeira liberdade não esteja em poder tudo. Talvez ela esteja em escolher, com lucidez, aquilo que realmente vale a pena.
Que você se habilite em fazer as suas escolhas!
Respira, é humano e eu também estou aprendendo.
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