Quando a dor sobe ao último andar

Talvez você também tenha parado por alguns segundos nos últimos dias. Talvez tenha sentido um aperto no peito, um silêncio estranho, ou aquela sensação difícil de nomear. Uma pessoa ameaçava tirar a própria vida, e a cidade pareceu suspender a respiração. O impacto foi imediato. Silêncio, medo, comentários, lágrimas. Não é exagero dizer que, naquele instante, algo do laço social foi convocado como se todos nós, de algum modo, estivéssemos ali. Não apenas como espectadores, mas como parte de uma cena que nos interpela enquanto comunidade.
Quando uma cena assim acontece, a primeira reação costuma ser tentar entender rápido demais: por quê? O que levou a isso? Mas algumas situações não pedem respostas imediatas, pedem presença. Pela psicanálise, a tentativa de autoextermínio não é, em essência, um desejo de morrer. É um pedido extremo para que a dor pare. É quando a palavra já não alcança, quando o sofrimento não encontra escuta, quando o pensamento se fecha sobre si mesmo. O corpo passa a falar porque já não há espaço simbólico suficiente para sustentar aquilo que se vive por dentro.
Vale repetir, mesmo que desconcerte: quem tenta se matar não quer desaparecer do mundo. Quer desaparecer da forma como está vivendo nele. Quer acabar com a dor. Há uma diferença importante aí e ela muda completamente a forma como nos aproximamos desse sofrimento.
No Brasil, esse não é um episódio isolado. Os números mostram que as tentativas de suicídio são muito mais frequentes do que os óbitos e que vêm aumentando nos últimos anos. Jovens, adultos em idade produtiva, pessoas atravessadas por sofrimento psíquico persistente, uso de álcool e outras drogas, solidão, sobrecarga emocional. Cada tentativa é um sinal de alerta. Não apenas individual, mas coletivo. Algo está pedindo cuidado.
Crises dessa intensidade não se atravessam sozinhos. Elas exigem sustentação compartilhada. Em meio à essa crise, a presença de um profissional da saúde mental foi nomeada e isso importa. Dar lugar técnico à escuta é reconhecer que o cuidado não se faz apenas com boa vontade, mas também com preparo, ética e responsabilidade.
E é a partir desse entendimento que algumas atitudes se tornam fundamentais:
- Não julgar. Não minimizar. Não romantizar. Frases como “é fraqueza”, “é falta de fé” ou “é só chamar atenção” não ajudam, afastam.
- Oferecer presença. Nem sempre é preciso saber o que dizer. Às vezes, ficar ao lado, ouvir sem pressa, já é cuidado.
- Ativar a rede. Família, amigos, escola, trabalho, serviços de saúde, CAPS, atenção básica. Cuidar não é tarefa de uma pessoa só.
- Divulgar ajuda. O Centro de Valorização da Vida atende pelo número 188, 24 horas por dia.
- Cuidar de quem cuida. Quem presencia ou acompanha situações assim também é atravessado. O impacto psíquico é real.
Tudo isso ganha ainda mais peso quando nos aproximamos do Natal. Esse tempo que, culturalmente, promete encontro, alegria e união também pode intensificar ausências, lutos, conflitos e a sensação de não pertencimento. Enquanto alguns celebram, outros sentem ainda mais forte o que falta. A expectativa de felicidade obrigatória pode silenciar quem sofre, como se não houvesse espaço para a dor em meio às luzes.
Do ponto de vista da saúde mental, datas festivas costumam amplificar o que já está ali. Quem está bem, celebra. Quem está em sofrimento, pode se sentir ainda mais sozinho. Por isso, o Natal também nos convoca à atenção: convidar, incluir, perceber quem se afastou, quem mudou o jeito de estar. Às vezes, um convite simples ou uma escuta disponível pode fazer mais diferença do que imaginamos.
Falar sobre saúde mental não é abrir feridas. É evitar que elas continuem sangrando em silêncio. Prevenir, fortalecer vínculos e legitimar o sofrimento humano não é exagero, é responsabilidade.
Em momentos como esse, o que mais importa é lembrar que ninguém precisa atravessar a dor sozinho. Quando a crise ganha forma, é a presença familiar, comunitária, profissional, que ajuda a sustentar o que parece impossível de suportar. Em meio àquele instante, a escuta esteve ali. E isso também é cuidado.
Talvez o maior aprendizado seja simples e profundo: quando alguém chega ao limite, não é apenas sobre uma pessoa à beira de um prédio, mas sobre todos nós que seguimos tentando aprender a cuidar melhor uns dos outros.
Cuidar da vida é um gesto coletivo, começa na escuta e se sustenta no vínculo.
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