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Marina Diva de Oliveira

A vida possível (e o tanto que isso já é)

Por Bruno
A vida possível (e o tanto que isso já é)

Marina Diva

Esses dias tenho pensado tanto no quanto as pessoas estão dizendo de dias em que a vida pesa de um jeito difícil de explicar. 

Não é exatamente o cansaço do corpo. É como se algo por dentro estivesse sustentando mais do que aguenta… há tempo demais.

A gente vai dando conta. Respondendo mensagens, cumprindo prazos, sendo o que precisa ser. E, sem perceber, vai se afastando de si, só um pouco por dia, o suficiente para quase não notar.

Foi Winnicott quem me ensinou a olhar para isso com mais delicadeza. Ele dizia que, no começo da vida, a gente não sabe existir sozinho. A gente precisa de alguém que nos cuide, que nos sustente (o corpo, o choro, o silêncio, alimentar e etc)

Alguém que segure sem invadir. Que esteja ali… de verdade.

E talvez o que mais doa, na vida adulta, seja ter aprendido a viver sem esse lugar. 

Tem gente que aprendeu cedo demais a dar conta.

A não dar trabalho (não quero incomodar).

A entender o clima antes mesmo de entender a si.

A se ajustar tanto… que virou quase outra coisa.

Funciona.
Mas cansa.

Winnicott chamou isso de “falso self”. Eu, às vezes, penso como uma versão nossa que aprendeu a sobreviver antes de ter tido a chance de simplesmente existir.

E sobreviver o tempo todo… é exaustivo.

Mas tem algo bonito, e quase secreto, nisso tudo.

Ele acreditava que existe, em nós, uma parte que não se perdeu.

Um gesto espontâneo. Uma verdade que não foi totalmente moldada.
Algo vivo… esperando um pouco mais de espaço.

E essa parte não volta com esforço. Ela volta com segurança.

Às vezes, no encontro com alguém. Às vezes, numa pausa que a gente finalmente permite.
Às vezes, num instante pequeno em que a vida não exige nada, só presença.

Tem um conceito dele que eu gosto muito: “holding”. É esse sustentar silencioso. Esse colo que não precisa explicar, só existir, encontrando um lugar seguro em nós.

E talvez crescer seja, aos poucos, construir isso dentro da gente.

Um lugar interno que não se apressa em consertar tudo. Que aguenta sentir sem fugir.
Que não exige perfeição para continuar.

Um lugar onde a gente possa… descansar sendo quem é.

Olhar para a vida assim muda alguma coisa.

A gente para de medir tudo pelo quanto dá conta e começa a se perguntar se ainda está vivo ali dentro. Porque saúde mental não é sobre nunca cair. É sobre ter onde se apoiar quando isso acontece.

Podemos sem suficientemente bons sem precisar dar conta de tudo. Simplesmente (e já é muita coisa) ser suficientemente bom para a sua própria vida?

Não perfeito.

Não pronto.

Não resolvido.

Só… suficientemente bom.

E ir ficando. Um pouco mais em si, a cada dia.

E eu queria te deixar com um convite.

Sem pressa. Sem certo ou errado.

Só um convite possível:

em que momento do seu dia você sente que não está só funcionando, performando, tentando dar conta? Esse momento existe aí?

Talvez seja pequeno. Talvez quase passe despercebido. Mas é ali que mora você.

E talvez cuidar da vida não seja dar conta de tudo. Seja, aos poucos, voltar para esse lugar. Porque viver, no fundo, é se permitir caber em si e isso diz tanto sobre Saúde Mental (o que você tem se autorizado?).

Que você tenha mais vida nos seus dias para viver uma vida que valha a pena ser contada!

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