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João Carlos Ramos

J.G. de Araújo Jorge

Por Bruno
J.G. de Araújo Jorge

João Carlos Ramos

José Guilherme de Araújo Jorge (Tarauacá - 20/05/1914 - Rio de Janeiro - 27/01/1987). Escritor e poeta de fina sensibilidade, que se destacou, sobretudo, durante os anos de chumbo. Nunca se abalava com as críticas ácidas a ele dirigidas por invejosos, mas respondia com verdade e principalmente com o sonho que somente a poesia pode outorgar.

Publicou estes livros de poesia: Amo, Meus sonetos de amor, A sós..., Cantiga do só, Bazar dos ritmos, Tempo será, De mãos dadas, Trevos de quatro versos, Meu céu interior, Harpa submersa, Mensagem, Quatro damas, O cantor da terra, A outra face, Álbum de poesias. Também publicou o romance Um besouro contra a vidraça. Publicou um livro de poesia político-social, intitulado Democracia aquartelada.

O livro De mãos dadas chamou minha atenção pela criatividade e romantismo de teor muitíssimo elevado. Trata-se de um duelo poético entre ele e uma poetisa portuguesa, chamada Maria Helena. Diz ele em uma correspondência: Ao receber os versos de Maria Helena, respondi-lhe aceitando a sugestão de publicarmos juntos um novo livro e eu sugeri o título: De mãos dadas.

Leiam esse diálogo:

Que importa o sangue quente se a alma é fria?

Que importa que haja no peito um coração, se a vida sem amor, sem alegria, sabe a clausura triste, a solidão?

Que importa que exista o sol se não há dia, se a noite é cega e é densa a escuridão?

Que importa ser raiz na terra fria se o ramo oscila nu, sem um botão?

Responde Maria Helena:

"Não te feches em ti, de ti ausente, e veste de calor o sangue nu.

Se tens o mundo aberto à tua frente, que mais precisas tu?

Quebra o cárcere estreito, onde penas e raivas te consomem.

Sê o homem humaníssimo e perfeito que apenas sente a dilatar o peito a glória de ser homem!"

Ele foi um dos poetas mais populares do Brasil na década de 60, mas, infelizmente, a glória do homem é passageira como o dia de ontem e o trem de outrora. Principalmente os poetas de renome são substituídos por aventureiros, influenciados principalmente pelas mídias sociais. Conhecido popularmente como "O poeta do povo e da mocidade".

Segue um soneto maravilhoso do grande lírico:

"A ESPERA - Ela tarda... E eu me sinto inquieto, quando julgo vê-la surgir num vulto adiante.

Os lábios frios, trêmula, ofegante, os seus olhos nos meus, linda, fitando...

O céu desfaz-se em luar... Um vento brando nas folhagens cicia, acariciante, enquanto com o olhar terno de amante fico à sombra da noite perscrutando...

E ela não vem... Aumenta-me a ansiedade...

O segundo que passa e me tortura é o segundo sem fim da eternidade...

Mas, eis que ela aparece de repente!...

E eu, feliz, chego a crer que igual ventura bem valia esperar-se eternamente!..."

Críticos de renome chegaram a compará-lo com Neruda e outros, guardadas as devidas proporções, a Castro Alves e sua verve de sonetista impecável, ao autor de Eu, Augusto dos Anjos.

Quem teve a ventura de conhecer a obra de Araújo Jorge sabe que sua atitude olímpica diante da vida é indiscutível e seu romantismo de navalha atravessa a alma de suas musas, até na posteridade. Sua riqueza verbal alia-se a uma rara inspiração que pode atravessar gerações. Acrescentando a isso que sua poesia é um porto seguro democrático, na crença no amor diante da opressão.

Enquanto muitos fugiram, amedrontados pelo poder ditatorial, ele não temia, chegando a ser preso e voltando a reafirmar sua vocação de poeta e revolucionário do amor sem fronteiras. Após 39 anos de ausência física, ainda relembramos a tocha acesa de sua poesia incomparável.

Nesta selva de mídias sociais, podemos ainda ouvi-lo falar, como as ondas em um mar de esperanças:

Amo!!!...

jocarramos@gmail.com

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