Já está na hora

Mais um episódio estarrecedor tomou conta da Câmara de Divinópolis. A vereadora Lohanna França (PV) deixou o Plenário escoltada pela segurança da Casa, ao gritos de “comunistas” e insultos proferidos por manifestantes bolsonaristas. A verdade é que ninguém, com o mínimo de sobriedade política, não suporta mais o delírio coletivo que toma conta de parte do país. Além do ataque covarde ao qual a vereadora foi submetida, o que mais estarrece em tudo isso é o comportamento dos demais vereadores. Nas imagens que mostram Lohanna sendo escoltada pelos seguranças, é possível ver que nenhum vereador se levanta e tenta defendê-la ou apaziguar a situação. Pelo contrário, silêncio. Apenas o vereador Ademir Silva (MDB), que presidia a sessão, solicitou que os seguranças acompanhassem Lohanna e suspendeu temporariamente a reunião.
Definitivamente, ser mulher neste país não é fácil. Quando elas ocupam seu espaço na política, então, a situação piora. Isso porque ainda há um caminho árduo a ser percorrido. A atual legislatura da Câmara de Divinópolis, por exemplo, tem apenas duas mulheres ocupando as 17 cadeiras. Pelos próximos dois anos, será apenas uma, já que Lohanna assumirá seu mandato como deputada estadual na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).
Para comprovar isso, o Brasil tem o caso de Marielle Franco. A vereadora assassinada no Rio de Janeiro, no dia 14 de março de 2018. Lohanna denunciou os ataques sofridos. Quem viu os comentários, publicados por ela em suas redes sociais, constatou que são de embrulhar o estômago. Aqueles que se dizem os guardiões da moral e dos bons costumes são os mesmos que não demoram nem meio milésimo para despejarem no mundo quem realmente são. A máscara cai e o véu revela pessoas frustradas, que se resumem a destilar ódio e estimular a violência.
O pior de tudo isso? O silêncio daqueles que deveriam minimamente ser exemplos de respeito e responsabilidade. Quem cala pode até não consentir, mas deixa de ocupar seu espaço e deixa por ecoar discursos tóxicos sem qualquer contestação. Ainda mais na política, os representantes precisam se manifestar e repudiar. Nesta semana, o alvo foi Lohanna. Na próxima, quem será? Esperamos que ninguém, mas é difícil imaginar que essa tenha sido a última vez que um vereador tenha sido atacado por se posicionar sem medo.
A grande verdade é que ninguém aguenta mais essa onda de insanidade que toma conta da sociedade e se alastra como uma faísca na pólvora. Já está mais do que na hora de a ordem, o senso, o respeito e a responsabilidade serem resgatadas neste país. Não dá mais para ver este tipo de situação e ficar calado. A omissão dos governantes pode ter resultados imprevisíveis. Afinal de contas, eles foram eleitos para quê? Para defender um povo ou os seus próprios interesses? Ou eles nem sabem de fato o que estão fazendo lá? É preciso informá-los? Só é possível afirmar que, na política, o Brasil está e continua a pé.
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