Desequilíbrio

Para algumas categorias, as notícias parecem sempre ser boas. Imagine receber um comunicado informando sobre um pagamento extra de R$ 75 mil às vésperas do Carnaval. Acrescente a isso, um “penduricalho” de mais R$ 25 mil mensais até dezembro. Não se trata de um bilhete premiado, mas de uma negociação bem sucedida entre a Associação dos Magistrados Mineiros (Amagis) com a presidência do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), em compensação de "passivos titularizados”.
Do outro lado, os profissionais da Segurança Pública pretendem implantar uma operação de “estrita legalidade” no estado em protesto em defesa da recomposição salarial com as perdas inflacionárias. Em uma espécie de operação tartaruga, o objetivo é pressionar o governo estadual a atender as demandas das categorias, que não têm sido tão bem sucedidas quanto as dos magistrados.
Não é preciso pesquisar por muito tempo para compreender a profundidade da situação. Matéria de janeiro publicada pela CNN no ano passado aponta a Justiça brasileira como a mais cara do mundo: cerca de R$ 160 bilhões — desse valor, quase 84% é para o pagamento de salários e aposentadorias. O montante, naquela época, já superava os gastos somados com polícia, bombeiros e o sistema carcerário.
Duas categorias em busca de seus direitos, mas apenas uma consegue. Um retrato simbólico do Brasil.
O problema está justamente nessa realidade que permeia todas as camadas do país. Para uns, sempre há dinheiro em caixa para conceder um “direito”. Para outros, honrar os compromissos previamente acordados e prometidos em campanha seria “comprometer o caixa” e, por isso, eles devem esperar a situação financeira melhorar — o que nunca acontece. Mas, nas redes sociais, os governantes se gabam dos resultados econômicos positivos e da redução dos índices de criminalidade. Esquecem que, por trás dos números, estão pessoas que trabalham diariamente para que tais resultados positivos sejam alcançados.
O problema não está em uma categoria ganhar bem, mas justamente nesse eterno desequilíbrio entre os setores. Por que para determinadas classes há sempre um “sim” a ser respondido, enquanto para as demais o “não” parece inevitável? O questionamento também vale para a classe política e demais altos escalões do Executivo. Muito se fala e pouco se faz sobre a infame frase de ‘precisamos cortar na pele”. Quase nenhum deles está disposto a, de fato, abrir mão de seus privilégios. Se o exemplo é a melhor forma de ensinar, estamos carentes de professores na política.
O Brasil vive em um eterno ciclo de desequilíbrio, capaz apenas de fortalecer os naturalmente favorecidos e, vez ou outra, arremessar migalhas ao seu povo e aos seus trabalhadores, como se fosse um favor. Para eles, pouco importa o preço do ovo, do arroz ou da carne, pois não são produtos que se colocam à mesa para matar a fome, mas pautas a ser colocadas nas redes sociais para capitalizar engajamento. O brasileiro é sempre encarado como um eleitor, nunca como um cidadão.
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