Menos tiros, mais acidentes

O silêncio das sirenes não durou nem um editorial. Ontem, este espaço destacou um dado que merece atenção: Divinópolis ultrapassou a marca de um mês sem homicídios, um respiro em meio a um histórico recente marcado pela violência. Um avanço importante, sem dúvida, e que deve ser reconhecido. Mas a realidade tratou de lembrar, quase imediatamente, que a segurança pública não se resume a um único indicador.
Enquanto os números da criminalidade mais grave dão sinais de recuo, outro alerta cresce, silencioso e igualmente devastador: o trânsito segue tirando vidas em ritmo preocupante. Em menos de 24 horas, três mortes foram registradas em acidentes na cidade e na região. Três histórias interrompidas, três famílias marcadas, três novos capítulos de uma tragédia que se repete com frequência cada vez maior.
Os dados oficiais reforçam o que já se percebe no dia a dia. O número de acidentes aumentou no início deste ano e, mesmo quando não há crescimento nas mortes, o volume de ocorrências por si só já revela um cenário crítico. Não se trata de episódios isolados. Trata-se de um padrão que se consolida e que exige atenção urgente.
Há uma diferença importante entre esses dois cenários. A redução dos homicídios, ainda que gradual, está diretamente ligada a estratégias de segurança, presença policial e ações de enfrentamento ao crime. Já no trânsito, a responsabilidade é compartilhada de forma muito mais ampla. Ela passa pelo poder público, pela fiscalização, pela estrutura viária, mas, principalmente, pelo comportamento de cada condutor.
E é justamente aí que mora o problema. Ultrapassagens indevidas, excesso de velocidade, desrespeito à sinalização, uso de celular ao volante. Atitudes que, muitas vezes tratadas como banais, seguem transformando ruas e rodovias em espaços de risco constante. Não é falta de informação. Não é ausência de campanhas. É, em muitos casos, escolha.
O contraste é inevitável. De um lado, comemora-se a ausência de homicídios por um período. De outro, multiplicam-se mortes que poderiam ser evitadas com atitudes simples. Vidas que não foram tiradas por conflitos, mas por imprudência, pressa ou descuido.
Por isso, este editorial não é sobre apagar o avanço registrado na segurança. É sobre ampliá-lo. É sobre entender que preservar vidas vai muito além de reduzir índices criminais. Passa, também, por enfrentar com seriedade um problema que insiste em crescer diante dos nossos olhos.
Se ontem o convite foi para refletir sobre a queda da violência, hoje ele se estende. É preciso olhar para o trânsito com a mesma urgência, com o mesmo compromisso e com a mesma cobrança.
Porque, no fim das contas, pouco importa onde a vida se perde. O impacto é o mesmo. E o silêncio que fica depois também.
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