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Editorial

Quem devia dar exemplo

Por Bruno
Quem devia dar exemplo

Há momentos em que a realidade deixa de ser apenas notícia e passa a ser um choque direto com aquilo que nos tornamos como sociedade. O caso registrado nesta semana, em Leandro Ferreira, aqui no Centro-Oeste mineiro, é um desses. Dentro de um restaurante, um vereador foi preso após, segundo a Polícia Militar, perseguir, ofender e agredir uma mulher com uma garrafa de vidro depois de ter suas investidas recusadas. Mesmo após a agressão, ainda teria feito ameaças. Não é um detalhe. É o retrato de uma escalada de violência que começa muito antes do golpe.

Não se trata de um episódio isolado em um ambiente qualquer. Trata-se de um agente público, alguém eleito para representar, para legislar, para zelar pelo interesse coletivo. E o que se vê é o oposto disso. Segundo os registros, a situação começou com insistência, evoluiu para ofensas graves e terminou com uma agressão física que poderia ter consequências ainda mais trágicas. Tudo porque uma mulher disse não.

E é exatamente aqui que a discussão precisa ser aprofundada. A violência contra a mulher não nasce no momento da agressão. Ela começa na recusa não respeitada, na insistência inconveniente, na invasão de espaço, na ideia equivocada de que o desejo masculino pode se sobrepor à decisão feminina. Quando isso não é interrompido, o resultado, muitas vezes, é o que vimos agora: violência explícita, pública e brutal.

O mais preocupante é perceber que esse não é um caso isolado dentro de um grupo específico. Recentemente, já refletimos sobre episódios envolvendo profissionais da segurança pública. Agora, o cenário se repete com um representante do Legislativo. Isso escancara um problema muito mais profundo, que não está restrito a uma função ou instituição, mas atravessa diferentes esferas de poder. Muda o cargo, mas o comportamento continua. E isso deveria nos alarmar.

Quando alguém investido de autoridade age dessa forma, o impacto ultrapassa a vítima direta. Ele atinge a confiança coletiva, corrói a credibilidade das instituições e envia uma mensagem perigosa de normalização da violência. Se quem deveria dar exemplo é protagonista desse tipo de situação, o que se espera do restante da sociedade?

Não há espaço para relativização. Não existe contexto que justifique agressão, ameaça ou desrespeito. Tampouco se pode aceitar tentativas de inverter narrativas ou minimizar o ocorrido. Esse tipo de postura apenas alimenta o ciclo de violência que, repetidamente, volta às manchetes.

Mais do que a responsabilização individual, que precisa ser firme e exemplar, o momento exige reflexão. Até quando o “não” continuará sendo ignorado? Até quando casos assim serão tratados como exceção, quando na verdade revelam uma estrutura que ainda falha em garantir o básico: respeito?

E essa não é uma realidade distante. Ela está ao nosso lado. Muito mais perto do que muitos ainda insistem em admitir.

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