Morar mais por menos, ou morar menos por mais?

A discussão sobre o ambiente que habitamos transcende o desprendimento financeiro de comprar um imóvel, é um reflexo profundo das nossas prioridades de vida e do conceito de dignidade. O direito à moradia é um direito social fundamental, garantido pela Constituição Federal de 1988 (Art. 6º) e reconhecido internacionalmente, que assegura a todo cidadão o acesso a uma habitação digna, segura e salubre, indo além de um simples teto. Na prática, esse direito envolve infraestrutura básica, segurança na posse e custo acessível. Inclusive, o conceito de moradia adequada não se resume a quatro paredes. Para que a cidadania seja plena em sua essência, a habitação inclui segurança da posse, disponibilidade de serviços (água, energia, saneamento), habitabilidade, acessibilidade, localização e adequação cultural.
Apesar dessa robusta fundamentação legal, o cenário prático no país ainda apresenta desafios expressivos que exigem políticas públicas eficientes. E, ainda assim, mesmo com o menor nível da história, o Brasil registrou no último censo o alarmante número de 5,9 milhões de moradias em déficit habitacional. Trata-se de uma ferida social que evidencia as profundas desigualdades de nosso território. Segundo a fundação João Pinheiro, o problema concentra-se nas regiões Sudeste e Nordeste, afetando majoritariamente famílias com renda de até dois salários-mínimos, chefiadas por mulheres e pretas/pardas. Além da falta de casa e da escassez habitacional em si, o país enfrenta um aumento na inadequação habitacional, que atingiu 27,6 milhões de domicílios urbanos em 2023, envolvendo questões de saneamento e infraestrutura, salubridade e patologias construtivas.
Diante desse complexo quadro demográfico e da necessidade urgente das famílias de encontrarem um lar, o mercado busca oferecer opções viáveis e acessíveis. Na tentativa de suprir essa grande demanda, existem diversas formas e fontes de viabilizar a aquisição do imóvel próprio, seja por financiamento de imóvel pronto novo ou usado, ou por meio de financiamento de aquisição de terreno e construção. Nesse vasto ecossistema de crédito, cabe ressaltar que a Caixa, banco público e detentora dos recursos do FGTS é responsável por cerca de 67,1% da participação no mercado de crédito imobiliário no Brasil. É o principal banco no financiamento habitacional, com uma carteira que alcançou R$ 905 bilhões no terceiro trimestre de 2025. Para além das possibilidades de subsídio, desde outubro de 2025, a Caixa retomou a cota de 80% de financiamento (ou seja, apenas 20% do valor do imóvel de entrada, que pode contemplar o uso do FGTS), com prazos de até 35 anos para pagamento.
Dado esse cenário otimista para o crédito de longo prazo, eis a pergunta que não quer calar na mente dos brasileiros na hora de assinar o contrato: Morar mais por menos, ou morar menos por mais? O dilema marca o embate de estilos de vida diferentes. Enquanto algumas famílias não abrem mão da segurança e da comum boa localização dos apartamentos, outras famílias não renunciam ao espaço comumente mais amplo e conectado com a natureza que as casas oferecem. A busca pela moradia ideal mapeia a rotina de cada classe social. Uma pesquisa inédita realizada pela Loft em parceria com a Offerwise revelou que as casas continuam sendo a moradia mais desejada pelos brasileiros que vivem de aluguel. Segundo o estudo, 70% dos inquilinos no país têm planos de se mudar para uma casa nos próximos meses, enquanto 36% consideram um apartamento e apenas 8% cogitam a possibilidade de morar em uma quitinete.
Esse forte desejo de amplitude espacial e liberdade desafia as tendências modernas. Apesar da verticalização das grandes cidades e das zonas metropolitanas, a preferência por casas permanece forte, até mesmo nas capitais do Sul e Sudeste. Nas principais regiões urbanas investigadas, 69% dos inquilinos pretendem se mudar para uma casa, contra 45% que consideram apartamentos. Contudo, há ainda, nesse cenário altamente competitivo, diversos fatores intrínsecos que vão além da segurança dos apartamentos versus a espacialidade das casas. No aspecto financeiro, o valor da taxa de condomínio tem se tornado um ponto de relevância. No Brasil, a taxa de condomínio média em 2025 era de R$ 691,75, e nas principais capitais do Sul e do Sudeste os valores médios passam R$ 2.000,00, segundo a mesma pesquisa supracitada.
O comprometimento de uma parte considerável do orçamento doméstico com taxas de manutenção contínua gera um grande ponto de alerta antes da decisão de compra. O fator “taxa de condomínio” pode ser decisivo na escolha entre casa ou apartamento, sobretudo nos casos de imóveis financiados, pois anexado ao valor de aquisição do imóvel, está introjetado o valor dos juros do contrato de até 35 anos. Portanto, após pesar balanços econômicos, as regras do mercado financeiro e as conveniências do dia a dia da família, cabe a cada qual – dados os interesses próprios – ponderar as muitas subjetividades do que é morar mais por menos.
Rafael Henriques Campos Dias, bacharel em arquitetura e urbanismo, especialista em gestão e produção do ambiente construído, mestre em projeto de arquitetura. Docente UNA Divinópolis e sócio titular do escritório Essencial Arquitetura credenciado Caixa.
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